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Jogo Sujo

vicente candido

EDITORIAL DA FOLHA

Padrões básicos de gestão e transparência administrativa soam como anátema no universo do futebol brasileiro. Os clubes, de forma geral, convivem com crônicos desequilíbrios orçamentários, dívidas volumosas e falta de planejamento –não raro agravados por transações irresponsáveis em proveito de dirigentes corruptos.

Embora de 2003 a 2013 as receitas dos 20 principais clubes tenham crescido 375%, atingindo R$ 3,1 bilhões (segundo o estudo “Finanças dos Clubes Brasileiros”, do consultor Amir Somoggi), o quadro é de baixa capacidade de investimento, uma vez que os recursos se esvaem em salários estratosféricos.

Não é fácil mudar essa realidade. A inércia do atraso tem triunfado sobre as tentativas de implantação de parâmetros mais modernos e condizentes com a importância econômica e cultural do esporte. A mais recente proposta com essa finalidade enfrenta as mesmas resistências de sempre.

Conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, a iniciativa em curso no Congresso procura equacionar as dívidas tributárias dos clubes com a União, estimadas em cerca de R$ 4 bilhões.

O projeto, entretanto, tem sido objeto de disputa entre forças que defendem a adoção de normas rígidas para superar o atual estágio e aquelas, representadas pela CBF e pelos parlamentares da chamada bancada da bola, que procuram flexibilizar os compromissos, com vistas a aliviar –ou melhor, premiar– a gestão irresponsável.

Trata-se, em resumo, de mais uma vez oferecer aos inadimplentes a oportunidade de refinanciar seus débitos com o poder público, benesse que só seria aceitável com a exigência de contrapartidas e o estabelecimento de sanções claras.

Esse tópico do projeto, conhecido como “Fair Play Financeiro”, é uma tentativa de obrigar as entidades a manter despesas proporcionais às receitas, sob pena de punições na esfera esportiva.

A direção da CBF, contudo, tem procurado impedir que a proposta triunfe. Na jogada mais recente, operou um contrabando legislativo: parlamentares incluíram um dispositivo que autoriza o refinanciamento dos clubes, sem contrapartidas, em emenda à medida provisória 656/2014 –cujo propósito é conceder incentivos fiscais à geração de energia eólica.

Resta saber se a presidente Dilma Rousseff (PT), que indicou para a pasta do Esporte um ministro no mínimo controverso, ficará ao lado do atraso ou se, como se espera, vetará o jogo sujo.

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