Advertisements
Anúncios

Escritor de livro sobre história do São Paulo “detona” Rogério Ceni

ceni

ROGÉRIO CÊNICO

‘Por que ele decidiu construir essa imagem pétrea, ferozmente antipática, megalomaníaca, do sou mais eu?’, pergunta escritor

Por IGNACIO DE LOYOLA BRANDÃO

Em um jogo contra o Corinthians, semana passada, cujos três pontos seriam importantes, Rogério Ceni perdeu um pênalti, e o time ficou no empate. Aliás, não é o primeiro que perde nos últimos meses, mas ele insiste: o direito de bater pênalti é dele, o dono do time, o líder, o comandante. Na quarta-feira, contra o Náutico, ele cometeu a façanha de dar um chapéu num adversário e a torcida delirou. Para mim, dar chapéu em jogador do Náutico, último colocado, é chutar cachorro morto. Já tivemos na história vários jogadores míticos como o “louco” Heleno, o desvairado Almir, o irreverente Romário, o insano César Maluco. No entanto, todos compunham personagens amados pelas torcidas pelo humor, doideira, gozação, insensatez, imprudência. Rogério não é imprudente, louco, desatinado. Ao contrário, é sisudo, comportado. Em Araraquara, diriam sem sal.

Rogério é a bola da vez na questão ódio-amor em futebol. Quando torcemos, somos irracionais, porque somos humanos. Porém, com o goleiro do São Paulo – um ótimo goleiro, reconheço -, por que a coisa muda de figura? Porque ele se assumiu como entidade. Muitas vezes se refere a ele mesmo na terceira pessoa, como o Pelé. Uma entidade precisa manter a compostura. Mesmo parte da torcida são-paulina acredita que está na hora de ele pendurar as chuteiras e se transformar em cartola, porque, é o que ouvi e já vi escrito pela crônica esportiva, Rogério tem a alma do cartola.

Ele que procure o que quer ser. O que eu gostaria de investigar, psicanaliticamente, é por que Rogério decidiu construir essa imagem pétrea, ferozmente antipática, megalomaníaca, do sou mais eu, o craque (e é, reconheço de novo, mas por que reconheço com raiva?). A cara é fechada, poucas vezes explode num riso que o coloca em sintonia com a plateia. Sim, vez ou outra, quando faz um gol de falta, os dentes se mostram em alegria incontida. Porém a marca do Rogério é a severidade. Será que ele gosta de bater pênaltis e faltas para destruir o goleiro adversário? Será que faz o que faz para mostrar: “Sou bom no gol e na linha”?

Busco em mim as razões desse sentimento nada agradável. Não sou são-paulino, ainda que tenha escrito a história do clube para a editora DBA. Uma questão emocional me levou a isso. Quando na minha infância inauguraram o Estádio Municipal de Araraquara, meu pai me levou. Foi o primeiro jogo de minha vida. Em campo, o São Paulo Futebol Clube contra não lembro qual time. Fiquei entusiasmado, porque no meu álbum de figurinhas havia uma carimbada: a do King, goleiro do São Paulo. Vendida no câmbio negro, inacessível para mim, filho de ferroviário. Levei anos para descobrir que o King vinha de King Kong pelo tamanho do negão que fechava o gol. Ele me assombrou com pontes, saltos elásticos, voava de uma trave à outra. A cada defesa espetacular o público urrava de alegria. Aquilo ficou na minha cabeça. O goleiro.

Quando cheguei a São Paulo, o goleiro do clube era o argentino Poy, meio mito, que dava entrevistas engraçadas pelo sotaque. Nos anos 1970 para 80, havia o Waldir Peres, meu vizinho nas Perdizes, que eu via sempre jogando na lotérica da Rua Monte Alegre. Um goleiro alegre, que uma vez fascinou a torcida na Rua Javari ao fazer quatro defesas seguidas, no bate e rebate, com as mãos, os pés e a cabeça. Ele ria, e saltava de prazer ao sentir os juventinos putos da vida! Também Zetti ficou na minha memória.

Então chegou a era Rogério Ceni. Um belo goleiro que cresceu, se firmou, até virar ídolo dos são-paulinos. Sempre foi uma figura isolada, porque isolados são os goleiros em seu quadrado, mas é acusado de falta de companheirismo com os colegas. Em suas memórias Rogério cita o episódio em que ficou fora de si quando a turma veio cortar o cabelo dele, uma brincadeira comum. Boba, reconheço. Bastou para ele: “Minha viagem com a seleção de 1997 acabou ali”. Via filmes no quarto, almoçava rápido, não tinha contatos com a maioria. “Só conversava o básico necessário e, mesmo assim, apenas com os mais chegados.” O que vejo nele é ausência de emoção.

Pergunto-me: de que matéria Rogério é feito? Essa imagem é formada, estudada, produto de marketing, ou ele é assim? O cronista Antero Greco é o anteparo de minhas reações raivosas contra Rogério cada vez que ele manda e desmanda no time. Tenta me conter: “O homem é craque”. Meu cunhado, Helio Ziskind, que escreveu uma bela história musicada do São Paulo, não assiste a jogos do time ao meu lado sem brigar; ele é pró-Rogério.

Estranha personalidade. Suscita ódio e fanatismo. Não gosto dele. Será porque tenho 1,70 m, sou fraco e um dia sonhei voar de uma trave a outra como King ou Gilmar dos Santos Neves? Sei lá. Só espero o dia em que você, Rogério, vai levar um frango, fazendo aquele tique de morder os lábios, o que mostra sua tensão. Você tem me dado poucas alegrias (quando falha); muitas tristezas (quando acerta). Não posso fazer nada. Você também não, nem me conhece.

Ignácio de Loyola Brandão é escritor, colunista do ‘Estado’, torcedor da Ferroviária. Autor, entre outros, de ‘São Paulo Futebol Clube – Saga de um campeão’

Advertisements
Anúncios

Facebook Comments

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá, seja bem vindo ao Blog do Paulinho ! Deixe aqui suas dúvidas, sugestões e denúncias. Todas as mensagens serão lidas
%d blogueiros gostam disto: