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Nelson, 100

Por ROBERTO VIEIRA

Por essa nem Nelson Rodrigues esperava.

Ser unanimidade centenária.

Pois de repente, não mais que de repente.

Nelson virou pop star.

Imaculado tal qual vestido de noiva.

Boca e escrita de ouro.

Confirmando que o grande acontecimento do século.

Foi mesmo a ascensão e glória dos idiotas.

Já que nem mesmo Nelson merece a unanimidade.

Ninguém, nem mesmo Nelson, suporta o aplauso uníssono.

Melhor, mil vezes melhor, a vaia do Maracanã ao Julinho.

Aquela vaia monumental e grandiosa.

Vaia que apenas os gênios merecem receber.

Vaia que celebra a incompreensão da humanidade.

Durante muitos anos, Nelson foi o reacionário.

O imoral e tresloucado poeta do beijo no asfalto.

A antítese do irmão intelectual.

Mas o tempo foi cruel com o Nelson.

As pessoas foram lendo suas chuteiras imortais.

E se puseram de joelhos – fiéis apaixonadas.

Maior teatrólogo nacional.

Filósofo da alma brasileira.

Cronista e profeta do apocalipse.

Nelson virou um Machado de Assis da rua Alegre.

Não que Nelson Rodrigues não seja genial.

Ele é.

Não que Nelson não seja melhor que Machado de Assis.

Ele foi.

Mas essa unanimidade ele não merece.

Melhor seria a vaia.

Muito mais sincera.

Muito mais digna da vida como ela é…

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