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Palavra do Magrão

Vergonha são-paulina

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4951

A companhando a contratação, por um caminhão de dinheiro, de Kaká pelo Real Madrid, lembrei-me de quando ele foi praticamente empurrado para fora do Morumbi pela torcida tricolor. Ali, percebia-se muita falta de vontade da arquibancada com seu craque, mais parecendo algo orquestrado por quem não se dá com o clube ainda que vista as suas cores.

Havia muita exigência e pouca paciência com o jogador. É que a galera não estava percebendo que, ao ocorrer alguma transformação no corpo de um indivíduo, muita coisa muda. Principalmente quando se trata de um atleta habituado a usar o organismo no limite extremo do possível. À época, conheci um grupo formado por críticos incansáveis do jogador, e por coincidência trombei com eles na quinta-feira passada na porta da TV Cultura, após o programa Cartão Verde.

Recordei-me de quase todos. Ali estava o Agenor, tricolor lá da Mooca, que cansou de dar canseira nos seus marcadores alguns anos atrás, quando vestia a gloriosa camisa do Ipiranga Futebol Clube, grande vencedor de dezenas de desafios com os vizinhos de bairro.

Ele, hoje, não é nem de longe aquele ponta atrevido e insinuante que deixava os laterais comendo poeira todos os domingos. Está gordo como uma pipa e male e male consegue calçar os sapatos. Quando o faz, termina o gesto com uma baita taquicardia que o leva muitas vezes ao cardiologista. Só por causa desse simples e corriqueiro gesto. Quando tem de dar um pique para não perder a condução, é um deus nos acuda: o suor lhe ensopa a camisa e a voz torna-se quase inaudível.

Durante uma olimpíada entre bairros, há alguns anos, seu irmão Anselmo, metido a nadador, levou-o a tiracolo.

A equipe ia bem na competição, até que, no revezamento, que valia mais que o dobro dos pontos das provas individuais, faltou um atleta. O mano olhou para a lateral da piscina e, por falta de outra opção, resolveu chamar o Agenor para substituir o ausente. Metido a besta como ele só, Agenor aceitou. Correu até os vestiários, pegou uma sunga emprestada e apareceu todo orgulhoso. Ele seria o terceiro a cair na água, já que o melhor de todos, o Onofre, fecharia a prova.

Quando foi a sua vez de pular, arrumou-se como pôde na plataforma. Quando o companheiro bateu a mão na borda, Agenor fechou os olhos e se lançou com toda a impulsão que lhe era possível. Ao chegar à superfície, percebeu que estava parelho com o adversário mais perigoso. Animou-se.

Desordenadamente, tentava bater pés e mãos de forma sincronizada. Como não conseguia, afobou-se. Sentiu uma tensão na altura do estômago e imediatamente lembrou-se do que acabara de saborear no desjejum, e definitivamente não houve quem o fizesse atravessar os 25 metros que o separavam do outro lado da piscina. Quase morreu. Até uma ambulância tiveram de chamar, pois a pressão arterial já estava pela hora da morte.

Pois é, eles – e outros mais que passaram anos a ridicularizar o menino Kaká – se sentiram constrangidos ao perceber que eu conhecia as suas estripulias. Foi quando notei o Rodolfo, chamado de “garganta de ouro”. Ele sempre foi o organizador das idas ao Morumbi. E todo jogo faziam o mesmo ritual. Encontravam-se na padaria do seu Sérgio, ali na rua dos Trilhos, comiam qualquer porcaria enquanto a lotação não chegava e partiam para o estádio.

Durante o trajeto, falavam mal de todo mundo, principalmente dos vizinhos palmeirenses do Bar do Francesco. Rodolfo é um abstêmio esportivo. Nunca chutou uma bola nem correu atrás do que quer que seja. É um tremendo sedentário. Mas, por incrível que pareça, é mais magro do que seus parceiros, mesmo gostando de tudo que leva o colesterol e os triglicérides às alturas. No almoço, invariavelmente, manda uma pururuca das boas ou uma rabada com polenta.

Sempre foi o crítico mais voraz de todo e qualquer jogador são-paulino que se destacasse, não apenas de Kaká. Muitos dizem que ele é um corintiano enrustido e que só possui cadeira cativa para assistir às finais em que o Timão participa. Mas isso é outra história.

O que ele tem mesmo é uma incrível capacidade de não entender nada de futebol. Nem um tiquinho. Ao vê-lo, não me contive e perguntei: e o Kaká, Rodolfo? Ele nada respondeu, abaixou a cabeça.

É, Rodolfo, e o Kaká? O garoto de então vale hoje muitos milhões de euros e está no time mais forte do planeta. É mole?

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2 comentários em “Palavra do Magrão”

  1. A direção do São Paulo não se deixa levar por esse tipo de pressao. Se nao ja teria vendido o Richarlyson e ainda estaria com o Muricy.
    O Caca saiu porque o Milan cobriu o valor da multa e o unico jeito de aumentar o valor da multa seria uma renovação de contrato.

  2. Torcida Tricolor?? sai daqui bebum.. não generalize. Torcida Organizada que recebia ingresso e era pau mandado da presidencia. Nunca vi Kaka ser vaiado nas arquibancadas azul, onde fica o sócio torcedor, o tal conhecido sócio comum. Que se diga por passagem, a MAIORIA!!!

    Vcs adoram generalizar !!

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