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Palavra do Magrão

Palito, Beata e o Piscina na Favela

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4241

Lendo os nomes de alguns dos jogadores da atual seleção brasileira – como Kaká –, não tive como não me lembrar dos da minha história. Sempre fui um observador compulsório, por culpa da timidez que me acompanha desde o nascimento, ainda que haja controvérsias. Por isso desenvolvi um bom senso de avaliação dos vários personagens que passaram por minha vida, aos quais eventualmente colocava o que chamamos de apelido. Só para criar mais intimidade com quem convivo, entendem? Minha memória, contudo, anda emperrada, pouco me lembro daqueles da infância – só dos meus.

Magrão sobreviveu, mas Caveira, Palito, Espeto e tudo o mais que lembrasse meus dotes físicos de então ficaram na poeira. De vez em quando, um gaiato qualquer, que há tempos não me vê, deixa escapar algum deles. Quem sabe seja por isso que não perco nenhuma oportunidade.

O problema é que nem sempre o objeto de nossas brincadeiras recebe bem as “homenagens”. Quase sempre acerto no calo: o ponto fraco dos amigos. Quando fazia cursinho para a universidade, estudava com uma galera interessante. Entre eles havia uma menina que para se ouvir uma palavra que fosse era necessário uma vida. Vestia saias compridas, os cabelos eram retos, detestava palavrão e quase nunca levantava a voz. Beata. Pegou!

Já na faculdade estudei com um bando de meninas. Uma delas era uma autêntica CDF. Para quem não sabe, a sigla quer ou queria dizer: com “aquilo” De Ferro. Era tão bitolada que certa vez em uma aula de patologia fez, de supetão, uma pergunta ao professor que beirava o ridículo. É que ele havia apresentado uma peça com uma lesão de placenta e, sem pestanejar, ela questionou se aquilo dava em mulheres. Não! Gritamos em coro. Dá em árvore sua jumen… Seu apelido ficou Fuscão – aquele bitolado.

A outra era uma graça. Morena, bonita – coisa rara de encontrar em estudantes de medicina naquela época – e meiga. Silvia se divertia com todos os babacas que lhe faziam a corte. Comecei a chamá-la de Mulata, pela cor, pela ginga, por todo o conjunto, enfim. Era mulata pra cá, mulata pra lá, durante todo o curso. Só no último ano me confidenciou detestar a cor da sua pele. Fiquei com a cara no chão e disse-lhe: “Desculpe-me… Mulata”. Saiu! Vou fazer o quê?!

Wladimir é o Saci. Desde a primeira vez que vi o neguinho, não consigo chamá-lo de outra coisa. Pior é que me aprofundei na imagem. Digo sempre que ele mora na Granja Vianna por que lá tem muito cipó. Ele diz que um dia me colocará atrás das grades por ser expressão preconceituosa e racista. Logo eu que sou neto de negros. Mas, de toda sorte, já me preparei. Chamado pelo juiz e questionado se o trato dessa forma, responderei que sim e acrescentarei: “O magistrado o chamaria de quê? De Cor-de-rosa?” (Risos, ou assim espero.) É claro que é puro carinho. Tenho poucos grandes amigos como ele, é especial.

Já Big House seria só uma tradução do nome do Casão, não existissem outras histórias por trás dessa forma de comunicação. É claro que vocês querem saber por que, mas só ele é que pode um dia contar. Sou muito discreto, como podem ver.

Quando cheguei à Itália, também c’era arrivato um moleque magro e cabeludo que um dia viria a ser o grande jogador italiano dos anos 90, Roberto Baggio. A forma como prendia sua cabeleira me levou a rotulá-lo de Boy George. Seu sorriso me mostrava que naquele caso tinha sido bem aceito. Alfinete é um belo exemplo de mudança de apelido. Quando chegou ao Parque São Jorge, fazia jus a ele. Depois, já no período da democracia corintiana, foi promovido a Agulha – cresceu como ninguém.

Da seleção de 82 não escapa quase ninguém. Branco é o Coruja. Seus olhos dizem tudo. Leovegildo Júnior não necessitaria de apelido, por culpa de seu nome, mesmo assim virou Capacete – absolutamente compatível com o seu corte de cabelo, que hoje não é nem sombra do que já foi.

Telê não teve, de nossa parte, o prazer de ser condecorado, porém, brincávamos com a falange perdida de seu indicador. É, igual à do Lula. Dizíamos que, quando estávamos levando um baile de algum adversário, ele chegava ao vestiário e para nos animar mostrava os indicadores das duas mãos em paralelo e afirmava: o jogo está igual, parelho. Ah! Ah!

O Batista é a própria caricatura do Barney, o amigão do Fred Flintstone. Não havia como evitar! Leandro é o Piscina na Favela. Uma cara toda estragada com dois olhos azuis que destoam.

Não sei os apelidos de todos os que hoje vestem a amarelinha, mas certamente nenhum deles se tornou um Galinho de Quintino. Se Kaká vale um caminhão de dinheiro, quanto valeria o grande Zico?

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4 comentários sobre “Palavra do Magrão

  1. lulapalestra

    O apelido tornou-se o último refúgio do racista. Esse negócio de “carinho” ficou para trás.

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