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A história de um “perna-de-pau”, o filho de Romildo

Do BLOG DO SANTINHA

http://www.blogdosantinha.com/artigos/a-historia-de-um-%e2%80%9cperna-de-pau%e2%80%9d-o-filho-de-romildo/

Por RUBÉN URÍA

(Traduzido por João Bosco “Bosquímano” Filho , com a colaboração de Fred Dias e revisão de Anizio Silva)

 

Comia pouco, e nem sempre, porque sua família era mais pobre que os ratos. Passava o tempo vagando pelas favelas de Recife e sofria de desnutrição, a ponte de quase ser internado em um hospital. Seus pais faziam malabarismos para chegar ao fim do mês, e ele, como permanecia com fome mesmo depois de comer, caminhava até os bairros menos perigosos, ao entardecer, para mendigar por uns pedaços de pão. Trabalhou em uma barraquinha de lanches por um mês, depois foi vendedor de sanduíches na praia e até chegou a ser gazeteiro por alguns dias. No dia do seu décimo aniversário, seu pai, Romildo, decidiu lhe presentear com uma chuteira e uma camisa vermelha, branca e preta, do time da região, o Santa Cruz de Recife. Aquele era o melhor presente possível para um menino que sonhava, assim como seus amigos do bairro, em ser jogador de futebol, e esse sonho foi o que impulsionou seu pai a gastar as economias de toda a família para ver seu filho feliz. Foi uma premonição. O filho de Romildo acabou se tornando um jogador profissional, vestiu a camisa do Brasil e foi eleito o melhor jogador do mundo. Seu pai não chegou a vê-lo. Faleceu atropelado por um ônibus.

A morte do seu pai foi um duro golpe para aquele garoto desengonçado, magrelo, de pernas tão grandes quanto tortas. Por outro lado, este violento acontecimento lhe deu força para seguir jogando futebol, uma paixão que pai e filho compartilhavam. Começou a treinar no Santa Cruz, e não teve vida fácil na sua primeira equipe. O primeiro sacrifício que tinha de fazer era caminhar, a cada dia de treino, por cerca de 40 quilômetros, ida e volta, para chegar até o local do treinamento. Tampouco teve sorte quando, por acidente, cortou profundamente o pé direito ao chutar um muro durante uma pelada pelas ruas de seu bairro. Tinha 16 anos e, ainda que o azar cruzasse seu caminho uma vez ou outra, nunca jogou a toalha. Seguiu jogando futebol com fé. Apesar de tudo e de todos. De alguns treinadores defensivos e sobretudo, de alguns jornalistas esportivos, que lhe apelidaram na imprensa local de “perna-de-pau” (1), um qualificativo brasileiro que serve para definir àqueles jogadores “que são tão ruins que até os aleijados jogam melhor que eles”. Com esse panorama hostil, “perna-de-pau” abandonou o Santa Cruz e foi contratado pelo Mogi-Mirim, um modestíssimo clube do interior do estado de São Paulo.

Foi ali, numa partida que só Deus sabe contra quem, que um treinador de prestígio, Vanderley Luxemburgo, se fixou no peculiar modo de driblar daquele garoto grandalhão, com a pele cheia de manchas, de cara afilada e olhar triste. Era muito individualista, olhava demais para a bola e não jogava com a cabeça erguida, sim, mas tinha algo especial. Luxemburgo teve uma intuição e decidiu apostar nele. Não errou, aquele garoto era um craque.

Em 1993 estreava no Corinthians, e seu treinador ficou mais que satisfeito com sua chegada à equipe. No seu primeiro ano disputou 19 partidas e marcou 11 gols, uma cifra bem superior às expectativas que os dirigentes tinham em relação a ele. Supunha-se que chegava para completar o banco de reservas, mas sua segunda temporada foi a confirmação de que aquelas pernas de gazela escondiam muito talento. Em 1994 marcou seis gols, e em 1995, irremediavelmente foi vendido ao Palmeiras por uma boa grana, graças ao patrocínio da empresa de laticínios Parmalat. Na Máquina Verde coincidiu jogar com grandes gênios como Zinho, Evair, Mazinho e Cafú, uma equipe cheia de talentos onde, de uma maneira incrível, se destacou sobre todos. Jogava com a 10 nas costas, surgia da ponta esquerda como um punhal, tinha uma velocidade explosiva e um pé de seda. Em apenas cinco jogos ficou famoso por seus gols de falta, onde sua precisão era incrível, até o ponto em que disparava bolas que se transformavam em meteoritos de fogo que superavam as barreiras a toda velocidade e que, como hipnotizadas, caiam como chumbo dentro das redes dos surpreendidos goleiros. Em suas três temporadas no Palmeiras marcou 53 gols, foi eleito Melhor Jogador do Brasil e era um dos jogadores mais valorizados do mercado. Seu pai teria ficado orgulhoso do seu sucesso, e teria sido o cara mais feliz do mundo quando Carlos Alberto Parreira o convocou para a Seleção Brasileira. Era o ano de 1996, e naquela época nenhum jornalista o chamava mais de “perna-de-pau”.

Foi então quando recebeu uma ligação da Europa. Bateu em sua porta o Deportivo de La Coruña e colocou um bilhão das antigas pesetas por sua transferência (2). Uma oferta irrecusável. Na Espanha, bastou apenas uma temporada para mostrar que era o jogador mais mágico do momento. Presenteou a torcida com uma bicicleta ali, um forte chute acolá, um grande drible em um dia e um golaço de falta no outro. Anotou 21 gols, sua melhor marca pessoal, e fabricou outras duas dezenas de assistências a seus companheiros. No verão de 1997, quando faltavam poucas horas para o fechamento do mercado, o Barcelona chutou o balde e desembolsou à vista o valor de sua cláusula de rescisão. Pagou a quantia de 4 bilhões de pesetas, com um salário de mais de um bilhão de pesetas por ano ao jogador. Na Ciudad Condal (3) sua fama ultrapassou fronteiras, foi o jogador que mais rendeu dinheiro ao clube, alcançou a titularidade com a canarinha e ganhou Ligas, Copas e Supercopas. Em 1999, o antes conhecido como “perna-de-pau” realizava o sonho de Cinderela e foi proclamado Bola de Ouro e Melhor Jogador do Mundo pela FIFA (4). Tornou-se o melhor jogador do planeta. O filho de Romildo, um garoto que sofria sintomas de desnutrição e não tinha dinheiro para escovar os dentes, estava no topo do mundo.

Mas, como a glória não é eterna, suas complicadas relações com Louis Van Gaal, então treinador do Barça, lhe obrigaram a mudar de ares. Jogou no todo poderoso Milan de Berlusconi durante alguns anos, ganhou a Copa do Mundo da Coréia e Japão de 2002 junto com Ronaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho. Depois voltou ao Brasil para uma complicada passagem pelo Cruzeiro. Em 2004 decidiu iniciar sua particular odisséia grega, para jogar no Olympiakos, equipe em que foi recebido como um herói e em que ficou por três temporadas. Hoje, o filho de Romildo segue demonstrando seu gênio futebolístico no AEK de Atenas, outro histórico time grego com uma torcida que o elegeu como ídolo maior (5). Tem 37 anos e está a um passo de anunciar sua retirada. Enquanto seu corpo aguentar, seguirá marcando gols de falta, de calcanhar ou de bicicleta, porque a qualidade não entende o passar do tempo.

Capaz do drible impossível e do gol inacreditável, dono de uma qualidade individual que camufla e enverniza seu gesto triste, seu olhar ausente, sua personalidade melancólica e suas formas retraídas, ele segue devolvendo o preço das entradas aos torcedores. Talvez porque sempre entendeu a bola como um meio para combater sua agonia, sua tristeza e sua tragédia familiar. Vítor Borba Ferreira, mais conhecido como Rivaldo, driblou todas as dificuldades da vida. De “perna-de-pau” a melhor jogador do mundo. Um craque.

(Artigo publicado originalmente no blog El “Hacha” de Rubén Uría)

Notas da tradução:

1- Há uma divertida incorreção do autor do texto, pois Rivaldo era chamado de “cai-cai” pela imprensa (e parte da torcida), mas o termo usado pelo autor é “Patapalo”, que traduzimos como “perna-de-pau”.

2- Um euro equivale a 1600 pesetas; segundo a revista Época, o valor da transferência foi de 9 milhões de dólares.

3- La Ciudad Condal, (A Cidade dos Condes), é um antigo apelido dado à capital catalã por causa da participação determinante dos condes na sua independência (Estadão).

4- O prêmio de Bola de Ouro é concedido anualmente pela revista francesa France Football, e o título de Melhor Jogador do Mundo pela FIFA.

5- Rivaldo joga atualmente no Bunyodkor do Uzbequistão, país do leste europeu.

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8 comentários sobre “A história de um “perna-de-pau”, o filho de Romildo

  1. Sokolov

    Uzbequistão no Leste Europeu????

    😀

    O Uzbequistão é um país da Ásia. A sub região onde o país está situado chama-se tradicionalmente Ásia Central…

  2. Alexandre Amaral

    Notas minhas:

    1) Joga absurdamente mais q o Kaká e ñ tem homenagem no Maracanã.

    2) O primeiro técnico d prestígio a querer o Riva foi MESTRE TELÊ q muito antes do Madureira (primeiro semestre d 1992) quis e indicou ñ só o Gênio no SPFC como o trio inteiro – Riva, Válber e Leto – e até hj morro d curiosidade pq a negaciação ñ evoluiu. Paulinho s souber por obséquio m diga! Ahhh… aqla final d Libertadores 94 seria outra… ahhhh…

    3) Como assim time do Mogi modestíssimo? Somos uma potência na região metropolitana d Mogi Mirim rsrsrrsrsrsrsrrsrsrsrsrsrsrsrs

    “Rivaldo, o último dos românticos, um herói injustamente esquecido.”

  3. Sculaxo

    Paulinho parabéns pelo artigo replubicado do Blog do Santinha, acompanho o trabalho do pessoal aqui em Recife, e pode ter certeza é um dos melhores de pernambuco.
    Enquanto a Rivaldo, espero que ele nos ajude nessas horas de dificuldades, a doação de uma gravação dele, ou um jogo comemorativo atraíria muitos torcedores pro estádio.

    Ótimo texto, parabéns mesmo !

    Saudações Tricolores

  4. Álvaro

    Há mais erros. Ele foi contratado pelo Palmeiras em 94. Foi campeão brasileiro vestindo a 10. E depois da chegada do Djalminha, vestiu a 11 (96). E sei que não disseram explícitamente, mas Cafu e Mazinho nunca jogaram juntos no Palmeiras. Alías o Cafu nunca jogou com o Evair tbm.

  5. eliandro

    Quando adolescente procurei durante 1 mês mais ou menos a camisa nº 11 do Rivaldo pois ele tinha a honra de vestir o manto sagrado da fiel, ficou aproximadamente um ano no Corinthians e foi sem a menor dúvida o mais clássico camisa 11 do Timão desde 1980. Pena que encontrou um certo Carlos Alberto Silva pelo caminho. Mas é impossível esquecer a sua atuação em Corinthians 1×0 Flamengo no Pacaembú e aquele golaço contra o Vitória pela fase semifinal. A sua primeira bola de prata da Placar foi pelo Corinthians em 1993, jogou muito no Corinthians. Adorava jogar com a minha camisa 11 do timão com os braços esticados e olhar fixo igualzinho ao Rivaldo, ai o destino colocou um basta na passagem do Rivaldo pelo Timão (a 1ª grande besteira do Dualib). Mas na Copa de 1998 torci muito pro Brasil e que Rivaldo ajudasse a trazermos o caneco, e calasse a boca de muitos jornalistas invejosos que gostavam de perserguir o craque. Mas na Copa de 2002 esteve perfeito com atuações melhores que 1998 e muito mais inteligente. Um verdadeiro guerreiro e gênio, o gol contra Bélgica, contra a Inglaterra e exibição da final. Formou com Ronaldo a dupla de ataque mais geniosa da seleção dos ultimos anos, igual a Bebeto / Romário.

  6. CONTRA A IMPUNIDADE

    Precisamos lembrar ao senhor Paulinho, dono do blog, que nós torcedores e trabalhadores que pagam impostos e suas contas em dia; nós que participamos de eleições e tentamos nos fazer representar da melhor maneira possivel, estamos INDIGNADOS com a demora referente ao processo de apuração e punição dos responsáveis pelo caso do gás na semi-final do campeonato paulista de 2008.
    Mesmo após o JORNAL LANCE ter divulgado que durante as escutas telefônicas no caso da máfia dos ingressos, foram encontradas/criadas provas ( gracações de conversas ) do envolvimento de torcedores e dirigentes da Sociedade Esportiva Palmeiras, estranhamente notamos “morosidade” no processo.
    Gentilmente solicitamos ao caro jornalista, que nos informe, cobre, investigue.
    Nós não queremos de forma alguma ter gente desta espécie vestidos de representantes mascarados de pessoas de bem em nosso meio.

    QUE SE INVESTIGUE, QUE JULGUEM E PRINCIPALMENTE QUE PUNAM OS RESPONSÁVEIS.

    NÃO A IMPUNIDADE !!!

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