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Palavra do Magrão

Da Carta Capital

De Descoberto a Berlim

Por SÓCRATES

A trajetória esportiva do mineiro Ronaldo da Costa chegara a seu ponto alto quatro anos antes, quando venceu a São Silvestre e quebrou um jejum de vitórias brasileiras de quase dez anos. Aquele negro esguio que venceu a subida da avenida Brigadeiro Luís Antônio, deixando para trás todos os seus concorrentes – os quais, impotentes, só poderiam aplaudir a performance –, representava o aparecimento de uma nova força no atletismo brasileiro. Surgia uma geração de grandes atletas de corridas de rua desfilando seus talentos em todos os cantos do mundo.

Nossos maratonistas conseguiram excelentes resultados na época, caso da medalha de bronze de Luiz Antônio dos Santos no Mundial de Atletismo, e tempos cada vez menores nesta prova que é o grande desafio de qualquer ser humano. As maratonas exigem do atleta o máximo da sua capacidade energética, obrigando-o a operar no limite físico por uma distância de 42.195 metros, uma eternidade. Por suas particularidades, hoje representam uma expressiva forma de integração, um evento esportivo e social extremamente festivo. Ronaldo bateu o recorde mundial da maratona há exatos dez anos em Berlim.

A cidade alemã recebe os principais atletas do mundo na especialidade com uma festa que começa no dia anterior à prova, com um café da manhã especial, em que os participantes são convidados a um banquete em pleno Estádio Olímpico. A corrida propriamente dita é sempre realizada em uma manhã de domingo, no início do outono europeu, quando a temperatura e a umidade do ar são favoráveis. As ruas e avenidas planas da capital alemã são invadidas por uma multidão de aproximadamente 25 mil pessoas, que servem como cenário para a competição dos atletas de alto nível, como foi o nosso Ronaldo. É a terceira competição mais veloz do mundo, palco dos sonhos daqueles que correm contra os recordes e os próprios limites.

A prova passa por monumentos importantes da história do homem, manifesta, em Berlim, na cisão ideológica da humanidade até a queda do famoso muro divisor das duas forças. E depois o Portão de Brandemburgo, ao lado do Parlamento, símbolo pleno do período da Guerra Fria, e a Kaiser Wilhelm Kirche, igreja destruída na Segunda Grande Guerra, onde hoje existe um memorial daquele processo tenebroso, terminando na Kurfürstendamm, rua-símbolo do capitalismo ocidental.

Ao passar por esses ícones de nossa História, Ronaldo em sua solidão atlética deve ter se lembrado de várias passagens de sua vida. As dificuldades da família de treze irmãos, na pequena e acolhedora Descoberto. O esforço despendido até ali, a expectativa de todos em sua terra natal, a decisão, tomada pouco tempo antes, de mudar de especialidade.

Um ano antes, em 1997, fazia sua primeira maratona, ali mesmo, chegando em quinto lugar. Seu tempo já havia sido muito bom e, por isso mesmo, estava esperançoso de outro bom resultado. Emocionou-se ao ver que, mais que isso, havia escrito uma nova página na História, derrotando os obstáculos que a vida lhe ofereceu. Em apenas duas horas e seis minutos, seu recorde mundial derrubou muito mais que um muro. No momento da chegada, percebeu que atingira o objetivo de todos nós: transformar o sonho em realidade!

Hoje, Ronaldo lamenta estar esquecido. É, meu velho! Esta é a sina dos que deixaram as pistas, quadras ou campos. No auge, tudo conspira a favor e todos o bajulam. Após a retirada, só a solidão nos conforta. Certamente Ronaldo acreditou, como todos os seus sucessores, que a façanha traria mais organização e investimentos ao atletismo. Aquilo mudaria sua vida. Que nada, querido, o nosso país nunca teve vocação para preservar a sua memória, muito menos para aproveitar a trajetória de grandes atletas para provocar a revolução esportiva de que necessitamos. Vide o teu próprio exemplo e outros mais, como o de Guga no tênis.

São jogadas fora, como lixo orgânico, grandes oportunidades para o crescimento de cada um dos que formam esta imensa nação. A cada início do chamado ciclo olímpico discute-se sempre a mesma coisa, com um discurso sobre mudanças estruturais que jamais acontecem. Os medalhistas de hoje, extremamente bajulados, seguirão o mesmíssimo caminho de Ronaldo e de tantos outros. Podem e devem se preparar para voltar à realidade. Na maioria dos casos, uma realidade suficientemente triste e pobre, capaz de deprimir os heróis da nossa história esportiva.

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1 comentário em “Palavra do Magrão”

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