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Muralha da China

Por MAURICIO SAVARESE

De Pequim

http://www.blogdosavarese.blogspot.com/

O rapper Mano Brown costuma dizer que quem é do gueto nunca tira o gueto de dentro de si. A frase resume o que sinto a milhares de quilômetros de distância de casa, na cidade sede dos 29os Jogos Olímpicos.

Eu nasci no bairro do Jardim da Saúde, que já foi bem mais pobre. Talvez por isso me sinta mais à vontade no apartamento suburbano onde estou hospedado em Pequim. Aqui não tem nenhuma suntuosidade de cerimônia de abertura –que evento mais tedioso!– nem gente de todo o mundo desfilando pelas ruas.

Os chinas que vivem aqui têm traços parecidos com os da gente simpática da rua Doutor Malta Cardoso. Aqui e lá, tem gente que dá duro para satisfazer necessidades básicas e segurar um troco para o sorvete da molecada e para a cerveja de cada dia –não no meu caso.

A diferença é que aqui, pelo menos nessas duas semanas em que ando pela cidade, não vi uma vez sequer algo equivalente às peladas no asfalto quente, quando galegos e negões jogavam no mesmo time e faziam clássicos memoráveis, para depois dividirem uma garrafa de refrigerante tamanho família. Aqui, dizem os dados oficiais, 90 por cento das pessoas são da mesma etnia, a han. Será mesmo?

Bem perto de onde estou, há um conjunto habitacional para migrantes. Eles viajam pelas grandes cidades para fazer obras a soldo do governo. São quase sempre homens e mulheres da Mongólia Interior, do islâmico Xinjiang e do Tibet, além de outras regiões menores, que são reunidos ali para fazer obras cujo resultado final raramente vão desfrutar.

Os Jogos começaram, mas esses daqui de Babaoshan passam longe de qualquer instalação olímpica. Trabalham na construção civil e são sortudos, porque a maioria dos outros migrantes já foi mandada para casa há semanas. Esses daqui de perto labutam em um conjunto de prédios de onde sai barulho de noite e de dia.

Os migrantes costumam parar tudo para assistir ao evento da passagem de um laowai (estrangeiro). A principio achei aquilo muito irritante. Mas não foi mais irritante do que a obra que ergueram há alguns dias: grandes tapumes ao redor do local onde residem, parecidos com os que vi protegendo áreas menos privilegiadas entre o aeroporto e a cidade. Alguns já disseram que é um tipo de gueto. Ainda não sei se concordo.

Há chineses que dizem que a questão dos migrantes precisa ser resolvida urgentemente e apóiam grupos de defesa dos direitos dessa gente, todos chancelados pelo Partido Comunista Chinês. A grande questão para esse povo é que os filhos da massa interiorana não podem estudar nas mesmas cidades onde os seus pais trabalham.

Para outros, esses trabalhadores não são seres humanos. Muitos não hesitam em dizer que uigures (do Xinjiang), mongóis e tibetanos não merecem confiança nem maior autonomia para as suas regiões.

Um impasse que nunca sai das entrelinhas, em favor do que chamam por aqui de “sociedade harmoniosa”. Harmoniosa onde?

“Meiyou banfa”, diriam os migrantes. Não tem saída. Já ouvi esse papo antes no gueto do Jardim da Saúde.

Os tapumes estão cobertos por faixas e pinturas relacionadas aos Jogos Olímpicos. Sinais cheios de cores, anéis que representam os ideais do movimento relançado há pouco mais de um século e que pela primeira vez é realizado em solo chinês.

Além dos desenhos, o tapume é coberto pelo slogan das Olimpíadas de Pequim: One World One Dream. Um mundo, um sonho.

Uma China? Na atual condição, isso parece bem improvável.

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