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Entrevista com João Havelange

Continuando a série de entrevistas difíceis de digerir publico abaixo a que João Havelange, ex-presidente da FIFA, concedeu ao jornal Folha de São Paulo.

Recomendo os mesmos procedimentos.

Tire as crianças da frente do micro, o excesso de inverdades pode prejudicar seu desenvolvimento moral.

Não esqueça de tomar remédios para prevenir possíveis alterações no estomago.

Havelange conta que as Copas de 1966 e 1974 foram manipuladas.

É claro, diz que a de 1978 não. (a sua primeira como presidente)

 

Da FOLHA DE SÃO PAULO

Entrevista – João Havelange

Maior cartola da história diz que salvou até preso político

Aos 92, presidente de honra da Fifa revela bastidores da bola e da política 30 anos após sua 1ª Copa, em 1978

Ele não é John Lennon, mas diz ter imaginado um mundo melhor. “”Se a ONU fosse como a Fifa, não viveríamos o que estamos vivendo. Não há repartição de riqueza, não eliminam a tristeza no mundo, me cortou o coração ver crianças abandonadas no mundo.” João Havelange se orgulha de ter expandido a Fifa. “Quando estive lá, eram 186 países. Fui a todos pelo menos três vezes. Nenhum político fez isso. Se tivessem feito, o mundo não estava como está”, gaba-se o dirigente.

RODRIGO BUENO

ENVIADO ESPECIAL AO RIO

João Havelange, 92, fala de Copas, desde a de 1958 até algumas “”armadas” e a de 2014.

FOLHA – Qual é seu maior orgulho?

JOÃO HAVELANGE – Dar ao Brasil a Copa de 58, que a era o que mais o povo do Brasil desejava.

Perdemos em 30, 34, 38, 50 e 54. Ganhamos em 58 e 62, perdi em 66, não me ausentei, e ganhamos a de 70. Em 74, fui eleito [Fifa]. Era demais ser eleito e ganhar a Copa, cortaram-me todo o capim embaixo dos pés.

FOLHA – O Brasil foi prejudicado na Copa-74? Houve armação na Copa?

HAVELANGE – Em 66, o Brasil tinha praticamente o mesmo time de 62. Quem era o presidente da Fifa? Sir Stanley Rous, inglês. Onde era a Copa? Inglaterra. Nos meus três jogos, com Portugal, Hungria e Bulgária, tinham 3 árbitros e 6 bandeirinhas. Sete eram ingleses e dois alemães. Acha que foi para quê? Acabar com meu time. Acabaram. Pelé foi machucado. Em uma homenagem depois, estava Stanley Rous. Me estendeu a mão e não o cumprimentei. Ele disse “o que você tem?”. Eu disse “faça um exame de consciência, você tem a resposta”. A Alemanha jogou com o Uruguai, e o árbitro era inglês. A Argentina jogou com a Inglaterra, e o árbitro era alemão. Qual foi a final? Inglaterra e Alemanha. Por que só tinha árbitro alemão e inglês nos meus jogos? Em 74, na Alemanha, também. O senhor não acha estranho? E te pergunto: a Inglaterra voltou a ser campeã ou ganhou alguma coisa? Não, então pronto.

FOLHA – O senhor afirma mesmo então que houve interferências a favor dos times da casa em 1966 e 74?

HAVELANGE – Exatamente.

FOLHA – Nos títulos que perdeu…

HAVELANGE – Fui à Alemanha [1974], acabava de ser eleito [Fifa], faço um jogo Holanda x Brasil. A Holanda vinha com problema de petróleo, sem petróleo porque tinha subido muito, e andavam de bicicleta. Nunca me esqueço. Quem tinha ido regularizar essa situação foi o [Henry] Kissinger [diplomata americano de grande atuação nos anos 60 e 70]. Ele chegou ao estádio para ver Brasil x Holanda, e o Stanley Rous me botou o [árbitro Kurt] Tschenscher, da Alemanha, que já tinha 50 anos e apitou o último jogo da carreira. E me jogou para córner. Perdi de 2 a 0. Suspenderam meu central [Luis Pereira, expulso contra a Holanda] para a disputa de terceiro com a Polônia. Puseram um árbitro [Aurelio Angonese, da Itália], um jogador meu pegou a bola no meio, foi agarrado na camisa quando entrava na área para fazer o gol. Apitou, fez a barreira e perdi de 1 a 0.

FOLHA – E em 1978, a Copa na Argentina do presidente Videla? Houve armação nesse Mundial?

HAVELANGE – Nada disso. Se você veio tratar de política, não aceito. Quando cheguei à Fifa, quem decidiu que a Copa ia ser na Argentina não fui eu nem o Comitê Executivo. Foi o Congresso [da Fifa], e você não pode mudar uma decisão do Congresso. Pode falar o que quiser. Eu só apertei o governo anterior, que era da senhora do Perón [Isabelita]. Fui a ela, depois ela caiu. Faltavam dois anos para a Copa. Fui ver o presidente Videla, não o conhecia. Ele me disse: “Senhor Havelange, não vou lhe dar a melhor Copa, mas vou lhe dar uma das melhores, pode estar certo”. E fez tudo.

FOLHA – O senhor era conhecido de Paulo Paranaguá [cujo filho homônimo acabou preso na Argentina como um militante de esquerda]?

HAVELANGE – Sim, muito, ele faleceu. A senhora dele ainda é viva, era filha do ex-presidente do Fluminense Antônio Leite. Ele [Paulo pai] foi embaixador no Kuait. Eles tinham um filho que se meteu naquela questão de revolução na Argentina. O Antônio Leite, pai da Glorinha, chegou ao meu escritório e disse: “O meu neto foi preso na Argentina, a Glorinha já foi lá não sei quantas vezes e não consegue falar com ele, ela está com medo”. Eu disse: “Faço futebol, sou administrador de uma entidade, não sou político”. Ele: “O senhor faz isso para mim. É meu neto. E começou a chorar”. Isso me doeu muito, e disse: “Estou saindo para o Oriente. Quando voltar, em vez de vir ao Brasil, desço em Lima e vou a Buenos Aires”. Assim fiz.

FOLHA – E aí negociou a libertação do Paulo [como diz Pablo Llonto, autor do livro “A Vergonha de Todos”, sobre a Copa de 1978]?

HAVELANGE – Cheguei e pedi audiência com o presidente Videla. Expliquei a ele e disse: “Se o senhor acha que estou me intrometendo, ponha-me para fora, não me atenda, e eu o respeitarei da mesma maneira”. Chamou o general Viola por telefone e disse: “O doutor Havelange vai aí lhe falar e veja tudo o que pode fazer”. Saí do gabinete e fui ao general Viola, décimo andar. O general me abre a porta do elevador. Entrei e falei do que se tratava. Chamou o coronel. “Verifica o caso desse rapaz e me ponha a par.” E assim o fez. Era novembro, e disse ao Antônio Leite o que tinha feito. A Glorinha pensava que o filho já estava… No princípio de janeiro, saí de Concorde para Paris. Quando ia fechar a porta do avião, entrou um sujeito da Polícia Federal e me disse: “Doutor Havelange, acabaram de telefonar de Buenos Aires. Mandaram avisar que a pessoa que o senhor pediu já está em Buenos Aires e amanhã já estará em um avião da Air France, como o senhor determinou, a destino de Paris. Esse rapaz vive hoje em Paris, é o filho de Paranaguá.

FOLHA – Não foi estranha a goleada de 6 a 0 da Argentina em 1978?

HAVELANGE – Não tenho nada a ver, mas dias antes o Brasil jogou com o Peru. Fui ao vestiário e disse que precisava ganhar de muito para ter saldo de gols. Ficaram o tempo passando a bola: 3 a 0. E não se esqueça: o time do Peru estava na terceira Copa, todos tinham mais de 30 anos. Não faziam tecnicamente um jogo bonito, e eficiência física nenhuma. Quando o Brasil jogou com a Argentina, fui ao vestiário e disse que precisávamos ganhar o jogo para sermos campeões. Disseram-me que iam jogar pelo empate. Lembre-se de que o Rivellino não entrou em campo. Empatamos. O Peru jogou e, se o senhor vir o filme do jogo, com dez minutos botou uma na trave. Se entra, tinha ganho de 10 a 0. O time do Peru não tinha perna para jogar. Todo mundo agora só fala em política, nisso e naquilo, e não é nada disso. A Argentina tinha um bom time, ganhou da Holanda, e vou lhe dizer mais: a Holanda se portou muito mal naquela Copa. Era a minha primeira na presidência, e a Fifa fazia um jantar onde entregava prêmios aos quatro times finalistas. Houve o banquete e, às 21h, cheguei com minha senhora. O presidente já estava lá, 22h, 22h30, e nada da Holanda chegar. Estavam lá o time do Brasil, da Itália, da Argentina, e a Holanda chegou às 23h, o time de macacão. Disse ao presidente: “Se o senhor quiser, não haverá jantar, o senhor pode se levantar que sairei com a minha senhora”. Ele: “Não, eu espero até o final”. Nunca mais houve jantar na minha administração. Time que ganhava subia na tribuna, eu dava a medalha e ia embora. Não vou a campo, você nunca sabe a reação do público. Na tribuna, ninguém mexe com você.

FOLHA – O senhor está bastante envolvido na campanha do Rio para ter a Olimpíada-2016, não?

HAVELANGE – Não estou envolvido, é que sou membro do COI, decano. Estou lá por eleição há 45 anos. E naturalmente me dou com a maioria dos membros, são 115. Mudou muita gente, mas ainda tenho uma penetração e espero trabalhar pelo Rio, que pode trazer os Jogos para o Brasil. Estarei feliz se isso acontecer e, se Deus me der a vida no dia dos Jogos, terei exatamente cem anos.

FOLHA – Acha que sua influência pesará a favor do Rio?

HAVELANGE – É mais difícil. Primeiro, tem país da Europa [Espanha/Madri], da Ásia [Japão/ Tóquio] e do continente americano [EUA/Chicago]. Mandarei carta aos 115 [membros]. Tenho todos os votos dos árabes, são meus amigos, da África, alguns da Ásia e da Europa. Vamos ver o que posso fazer.

FOLHA – E a Copa-2014 no Brasil? O país pode fazer uma boa Copa?

HAVELANGE – Sem dúvida, e vai fazer. O Ricardo [Teixeira, presidente do comitê organizador da Copa-2014] vai fazer algo de formidável. Escolheu como presidente do conselho administrador o Carlos Langoni, que foi presidente do Banco Central, sujeito inteligente. Já tem firmas nos EUA que devem estar interessadas. Pode ter certeza de que vamos ter uma Copa excepcional. Hoje [segunda] estive com o presidente [Luiz Inácio Lula da Silva], e ele me disse: “Tudo o que for possível, nós vamos fazer. Vamos rever todos os aeroportos, tudo o que for necessário para que a Copa seja um primor. E os Jogos também, se os recebermos”.

FOLHA – O que acha da administração de Blatter, seu sucessor na Fifa?

HAVELANGE – Ele deu continuidade. Como tem recursos, também fez projetos. Fez o Goal. Em todas as federações, fez uma sede e um campo. Quem não precisava, ganhou outra coisa. E fez outras coisas fantásticas. Fiz meu presidente. O [Lennart] Johansson [ex-presidente da Uefa] não gostou. Foi eleito, reeleito e será reeleito até 2015. Aí terá 80 anos e, se não quiser mais, disse a ele: “Difícil na vida não é chegar, é saber sair. Tem que sair bem”.

FOLHA – O que acha de a Fifa ser presidida por um ex-jogador, como Beckenbauer ou Platini?

HAVELANGE – Se for, primeiro vai ser presidida pelo Ricardo [Teixeira, presidente da CBF]. Depois, vai ser o Platini. Já não estarei vivo. Ele é excepcional, é inteligente, tive admiração por esse rapaz na Copa de 98.

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11 comentários sobre “Entrevista com João Havelange

  1. Anderson

    Agora assunto de múmia, virou assunto para encher linguiça no blog.
    Participei, apenas para não ficar em branco. Vc. acha que Corinthiano tá se preocupando com múmia? Arruma mais denuncia nova que é melhor.

  2. PEDRO PAULO

    O havelange ainda se acha o todo poderoso do futebol, mesmo depois de passada sua época.

  3. AURISSAN RODRIGUES DE MATOS

    Ricardo Texeira presidente da fifa? mandem internar esse senhor havelange, ou com certeza ele morreu e esqueceram de avisar a ele.

  4. Alexandre

    Eu não gosto de política e nem dos políticos, mas o João Havelange, como brasileiro deveria ser um orgulho para o povo.

    Uma pena não podermos ter este sentimento dentro da gente.

    Admiro apenas o feito profissional.

  5. Marco

    Ricardo Teixeira presidente da FIFA, pode ser sim, não estamos falando groselha não…..não esqueçamos que este senhor (q por sinal foi o pai do mal do futebol brasileiro) tem força sim na FIFA, fez o atual presidente e o sonho é ver o RT presidente, trabalha por isso e deverá ser após COPA de 2014!

    Abram os olhos Beckenbauer (este acho que vale a pena ser o presidente da FIFA) e Platini, abram os olhos presidentes de federações.

    Se taparmos os olhos, veremos as copas serem ridculas como é a seleção Brasileira hj.

    Abs, Paulinho

  6. Márcio

    Engraçado como ele fala da seleção brasileira né?! como se fosse propriedade sua mesmo: “suspenderam meu central,perdi de 2×0, puxaram meu atacante pela camisa,minha seleção”. lembra mesmo seu ex-genro, Ricardo Teixeira.

  7. pozzi

    Eh moçada, soh a possiblidade do ricardo teixeira poder 1 dia presidir a FIFA torna o futebol muito pior do que ele eh, do jeito que vai vamos ter copa com com 50 paises com direito a repescagem e 2ª divisão, quem viver verah !
    e a sede da FIFA irah passar por uma reforma sem licitação…

  8. Carlos T. Correa

    Muito interessante essa declaração sobre a copa da argentina. Eu moro no Perú e a versão é desencontrada. Ninguém confirma se houve mala preta ou não. A relação perú – argentina era boa naquela época. Tanto que Perú enviou apoio aéreo durante a guerra das Malvinas.

    Quem se lembra do jogo, o Perú perdeu gols inicio e depois Argentina passou por cima. Ramón Quiroga, foi o goleiro, argentino nacionalizado, tomou os seis gols e hoje continua com a sua carreira de técnico e comentarista de futebol aquí no Perú.

    Terá razão o Havelange?

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