O drama de Joana Maranhão

Acabo de ler, no site Gazeta Esportiva, uma entrevista de Joana Maranhão.
Ela é um de nossos maiores talentos na natação.
Disputou os Jogos Olímpicos de Atenas com apenas 16 anos.
Hoje está na luta pelo índice para as Olimpíadas de Pequim.
Na entrevista concedida Joana abriu o seu coração e contou uma passagem de sua vida estarrecedora.
Foi molestada por seu treinador quando tinha apenas nove anos de idade.
Confesso ter me emocionado ao ler.
Não sei quem foi o autor da barbaridade, mas tenho certeza, não me controlaria se o encontrasse.
Leia abaixo o trecho que retirei do site que conta o ocorrido.
GE.Net – Houve um tempo que você chegou a dizer que estava com medo de pular na piscina e dar seu melhor e que tinha pensado em parar. Isso passou… como você lida com a natação hoje?
JM – Passou! Eu passei por maus bocados nos últimos três anos. A verdadeira historia é que na infância fui molestada pelo meu técnico. Para ser mais exata, quando tinha nove anos. Mas a mente tem um poder incrível e durante todos esses anos eu tentei convencer a mim mesma que nada daquilo tinha acontecido, que tinha sido fruto da minha imaginação. Mas como uma onda muito forte, dez anos depois eu fui tomando consciência de tudo que eu tinha sofrido. Foi muito doloroso, foi um processo lento. Freqüentei psiquiatra e psicólogo, porque eu precisava colocar aquilo tudo pra fora. Durante esse processo, tudo na minha vida sofreu as conseqüências e com a natação não poderia ter sido diferente. Mas hoje que eu estou bem, consigo falar sobre isso. Parece que saiu um peso. Eu até pretendo, no futuro, fazer algo em relação a outras crianças que sofrem isso e têm medo, vergonha de contar pros pais como aconteceu comigo. Minha mãe só soube no ano passado. O “medo” de cair na piscina vinha daí. Os abusos aconteciam no clube, dentro da piscina. Foi muito traumatizante, não foi fácil, mas eu superei.
GE.Net – Vocês procuraram a polícia, a Justiça, pretendem fazer algo desse tipo?
JM – Eu não tive coragem, afinal, já tinham se passado dez anos. Que provas eu tinha? E isso tudo aconteceu dentro de um clube, que também viria contra mim. Eu já estava tão abalada. Quanto a ele, a vida e Deus vão dar o que ele merece. Eu não quero de forma alguma saber da existência dele. O processo que eu estava passando já era tão sofrido que não vi sentido entrar na Justiça. Só seria mais sofrimento. Onze anos se passaram e eu tô viva, tendo a oportunidade de começar de novo, o que posso reclamar?
GE.Net – Sua mãe só soube no ano passado, foi mais difícil admitir o que aconteceu ou contar para ela?
JM – Tinha dias que me encolhia na cama, e só fazia chorar. Não conseguia que ninguém encostasse o dedo em mim. Eu estava tão vulnerável que praticamente implorei que minha mãe me ajudasse. Eu contei tudo. Foi saindo de uma vez, sabe? Ela ficou parada, chocada, ‘tadinha’, me pediu desculpas! Como se ela tivesse tido alguma culpa. Mas enfim, o mais difícil foi “reviver” tudo isso, e depois me “reconstruir”.
GE.Net – Como você disse, a partir disso muita coisa fica compreensível…
JM – Pois é, depois do tratamento comecei a pesquisar as conseqüências e via que muito da minha personalidade, muito da minha “agressividade” vinha daí. Durante o tratamento, melhorei bastante. As pessoas mais próximas sentem essa diferença, e nas outras áreas da minha vida, tudo vem melhorando, vem clareando. A tempestade passou. Eu tinha duas opções: ou vivia presa a esse triste episódio ou dava a cara à tapa e me tratava. A segunda opção foi muito melhor pra mim.
GE.Net – Com todas estas mudanças, como você se descreve hoje em relação ao que era? O que mudou em você?
JM – Foi tanta coisa!!! Eu hoje não deixo de viver, de sentir nada na minha vida porque retrair as coisas pode ser muito pior no futuro. Dou muito mais valor às pessoas que estiveram comigo durante toda essa caminhada, minha mãe, meus irmãos, meu namorado, minha sogra, todos eles foram primordiais. Acho que se isso que passei é amadurecer, estou amadurecendo aos poucos.
* Por indicação do leitor Fernando Noruega
