Leiam, vale a pena !

Por Deborahlix


http://dubavardage.blogspot.com/


– Meu pai, Rivelino e o Glorioso Sport Club Corinthians Paulista –





Muitos são os que não entendem um certo tipo de comportamento de natureza passional-esportiva e o criticam severamente. Sobretudo, os que se consideram ‘afortunados’ por terem nascido no eixo Rio-São Paulo. Ficam irados e não admitem que torcedores de outras regiões nutram uma paixão intensa por times cariocas e paulistas e engrossem as fileiras de suas torcidas. Para os críticos, sejam eles cariocas, paulistas ou os radicais regionais, ser torcedor de um time de outra cidade ou (infinitamente pior!!!) torcer para dois times, um regional e um de um grande centro, é assunto de heresia, falta de personalidade, ausência da verdadeira paixão pelo esporte, distúrbio de auto-estima ou desprezo pela própria identidade regional.

Escapa, no entanto, a estes algozes donos da verdade futebolística, pelo menos três importantes nuances.

A primeira: assim como o mar não pertence, de fato, a nenhum país ou governantes, um time não se restringe a uma extensão territorial limitada. Se, como lindamente disse Leila Diniz, “o mar é das gaivotas, que nele sabem voar”, um time pertence a um coração torcedor apaixonado, esteja ele onde estiver.

A segunda, logicamente complementar à primeira: a paixão, tampouco, respeita fronteiras, limites, barreiras e bandeiras. E futebol é pura paixão! Enganam-se redondamente os torcedores profissionais, ditos mais técnicos, normalmente ditadores de regras, quando querem justificar as escolhas futebolísticas de cada um a partir de um arrazoado lógico e coerente. Condicionar a escolha de um time ao território onde se nasceu é algo absolutamente arbitrário e prova de tremenda ignorância a respeito da natureza humana. Assim como os cheiros, o tipo de toque e de carinho que recebemos, bem como as imagens ancestrais de nossa infância condicionam a escolha de nossos objetos amorosos ao longo da vida, a escolha (ou não) por um time (ou mais de um) está enraizada nas nossas experiências precoces com o mundo masculino, com a noção de virilidade, de competitividade e outras decorrentes destas. E mutilam cruelmente a natureza humana os que não aceitam ser capaz um coração (de homem ou de mulher) de amar mais de um…

Finalmente, a terceira e mais complexa nuance que escapa aos sabedores-de- tudo-professores-de-Deus do futebol se refere à nossa própria história como país, que concentrou poder, decisões e dinheiro (e ainda os concentra absurdamente, mesmo que em menor medida, em relação ao passado), justamente, no eixo Rio-São Paulo; e fez com que quase tudo relacionado a este pólo se tornasse modelo e objeto de desejo e admiração (quiçá, até de inveja) para as demais regiões do país.

Pessoalmente, sou ‘vítima’ destes três aspectos.

Curitiba, onde eu vivi dos 7 meses de idade aos 27 anos, era – até o advento da “lernerlândia”, nos anos 80 – nada mais, nada menos, que um amontoado disforme de colonos de diversas origens que mal se comunicavam entre si, sem qualquer identidade cultural comum. Terra de um povo tímido, extremamente reservado e individualista, dona de um sotaque medonho de feio, longe de ser sensual ou simpático. Curitiba nada tinha de interessante, com exceção das gélidas manhãs de inverno: uma paisagem de cartão postal, onde o azul indescritivelmente forte do céu, em contraste com o branco da geada sobre a terra e o verde-musgo forte das resistentes araucárias, me emocionam até hoje.

Meu lazer, na pobreza atroz na qual cresci, durante a semana, se resumia à escola, aos meus estudos e às brincadeiras que fazíamos livremente numa casa onde eu e meus irmãos éramos os reis, na ausência de meus pais, que sempre trabalharam. No nosso grande quintal, na rua ou no campinho, eu vivia junto dos piás – o masculino sempre me foi vital, sempre me deu referência e centro e sempre o preferi, ao mundo das meninas. Brincávamos de bete-ombro, jogávamos bolinha de gude e bafo, construíamos carrinhos de rolamento (ou rolimã), fazíamos e empinávamos raias (ou pipas) e, mais que tudo, jogávamos futebol: de botão e de campo. Joguei até uns doze anos. Depois disso, com os meninos ficando cada vez maiores e mais fortes e eu, cada vez mais doce e sensível, resignei-me a acompanhar os treinos no campinho, a passar sebo de boi nas bolas de capotão, a participar da organização dos torneios que promovíamos no quintal de casa e, é claro,a torcer.

Nos finais de semana, meu pai, normalmente sisudo e reservado, mas que adorava futebol, entrava no nosso universo lúdico, ouvindo jogos pelo rádio da sala, sobretudo os do nosso amado Colorado que, naquela época, nunca eram transmitidos pela televisão. Pela televisão, só eram transmitidos os jogos das “grandes equipes”. E víamos todos os que podíamos, especialmente, os dos times do Rio, de São Paulo e, eventualmente, de Minas. Sonhávamos em ver em campo, um dia, nosso amado Colorado enfrentando um deles.

Mas não só de admiração os grandes times viviam lá em casa. Eles também nos acenavam com a possibilidade de uma vida melhor. Meu pai jogava na loteria esportiva todas as semanas, e eu sempre achava que, um dia, nossa vida de pobres de marré-marré-marré mudaria graças ao Corinthians, ao Flamengo ou ao Cruzeiro. Chegamos perto, num domingo, quando com doze pontos já fechados, o Vasco da Gama, no último minuto, virou o jogo e nos tirou das mãos a tão desejada fortuna. Mas, ao invés de ficar brava com o Vasco, agradeci, pois, mesmo tão novinha, com no máximo dez anos, percebi que meu pai não tinha sido feito para ser um homem rico. Já havia perdido uma fortuna na vida, antes de meu nascimento, e torraria a segunda, tamanha era, naquela época, sua arrogância. E se ele se transformou num ser mais humanizado, tolerante e urbanizado mais próximo de sua morte, ele deveu muito disso à pobreza que nos acompanhou por muitos anos. Mas isso é assunto para outra hora.

Temperamental, de personalidade difícil, absolutamente anti-social, um tanto excêntrico, mas, paradoxalmente, dono de uma doçura e de uma sensibilidade extremamente raras em seres masculinos (ambigüidade que me marcou profundamente, diga-se), meu pai jamais foi capaz de pegar uma bola e fazer uma mínima embaixadinha que fosse. Aliás, nunca poderia imaginar meu pai vestindo shorts e camiseta. Nunca na vida o vi vestido assim. E se pegou em bola na vida, foi apenas para costurá-la para meus irmãos. Sua paixão pelo futebol era como uma paixão de gourmet, não como uma paixão de chef de cuisine: ele gostava de admirar futebol, não de jogar. Adorava analisar, discutir, relembrar. E sua maior admiração, a mais perfeita obra desta grande arte sempre foi, para ele, o Sporte Club Corinthians Paulista. E, dentro do Corinthians, seu maior ídolo era Rivelino. Cresci ouvindo meu pai comentando, com seu ar de sabe-tudo, as grandes jogadas de Rivelino. Mais tarde, já maiores, ríamos muito, eu e meus irmãos, diante dos gritinhos histéricos que minha mãe dava a cada vez que Biro-Biro tocava na bola: ele era seu jogador preferido. Na minha adolescência, apaixonei-me ideologicamente pelo Sócrates e hormonalmente pelo Casagrande…

Quando, muitos anos após estes domingos de jogos em família, depois mesmo de a família ter sido substituída pelos amigos, namorados e maridos, quando finalmente atraquei minha nau dos loucos em São Paulo, aqui cheguei apaixonada pelo Corinthians, como deveria ser.

No entanto, vendo, finalmente, meu amado Paraná competindo na mesma divisão que o time de meu pai, num momento onde eu ainda insistia em querer ser ‘normal’ e em me livrar da imensa influência de meu pai em minha vida, contrariando totalmente minha natureza generosa e ampla, decidi ter um só amor, uma só paixão – e, como justificativa deste ato racional, usei o fato de o Corinthians, há alguns anos, ainda num torneio mata-mata, ter assinado a desclassificação do Paraná. Fiz-me de marido traído e até esbocei uma paquera com outro time daqui, mas Deus é testemunha: minha pele nunca arrepiou diante do “outro”. Mas, mesmo assim, eu me controlava e me mantinha firme na minha decisão de só torcer para o Paraná.

No entanto, após a morte de meu pai que, apesar de ter me dilacerado por dentro, foi também para mim, em muitos aspectos, libertadora, muitas coisas em minha vida foram re-significadas e, um dia, vendo-me emocionada a cada batalha travada pelo Corinthians, no ano passado, perguntei-me: mas por que não posso torcer para os dois mesmo? Quem foi que disse? Por que não posso ser o que sou, mesmo que poucos me entendam? E por que tenho de me livrar do meu pai, sobretudo agora que, fisicamente, não o terei mais?

E isso se acentuou de modo inacreditavelmente forte há alguns dias, depois que estive no Parque São Jorge e, mais especificamente, no Memorial do Corinthians.

Jamais sonhei que imagens tão nítidas da minha infância pudessem brotar daquele modo na minha tão dolorosamente deficitária memória. Tudo estava lá, junto da imagem de Rivelino, Sócrates, Dida, Casagrande, Biro-Brio, Vampeta e até do abominável Marcelinho Carioca: meu pai, colado no rádio da sala ou no seu radinho de pilha com foninho branco; as tardes chuvosas e frias de domingo, em torno da televisão; a zebrinha da loteria esportiva; minha mãe bordando almofadinhas para o carrinho de rolamento com o escudo do Colorado; meus irmãos e eu nos empanturrando de pinhão cozido enquanto colávamos figurinhas de nossos ídolos em nossos álbuns de futebol; nossos conjuntos de times de futebol de botão…. Foi absurdamente emocionante e, uma vez mais, libertador.

E porque, como diria Jean Ferrat, “ninguém se cura de sua infância”, hoje, assumidamente apaixonada pelo pai que tive, posso declarar, sem medo:

– Em meu imenso coração paranista também cabe o glorioso Sport Club Corinthians Paulista, sim, senhor!

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.