Da Folha de São Paulo
TOSTÃO
Imagem não é real
A imagem de alguém nunca corresponde à realidade. A imagem pode ser quase tudo ou quase nada. Nunca é |
A SOCIEDADE atual é cada dia mais do espetáculo, da imagem, da autopromoção, do representado, e não do real, do que parece, e não do que é. É a alienação e a falsificação da vida.
No futebol, quase todos os jogadores, mesmo os jovens e os medíocres, possuem, além de muitos bajuladores, empresários e assessores de imprensa que cuidam de suas imagens. Os atletas são orientados sobre o que falam e como se comportam. Passam a ser robotizados. Raramente dizem o que sentem.
Há exceções. Certa vez, em uma entrevista, perguntei a Romário se ele se preocupava com sua imagem. Ele respondeu: “Quem gosta de imagem é televisão”.
Um dos motivos de Maradona ser tão adorado pelos argentinos é que ele, por não querer parecer um bom moço, tornou-se mais humano e mais real, com suas fraquezas, esquisitices e contradições.
Mesmo com Romário, Maradona e outras pessoas mais autênticas e espontâneas, há um desejo de se mostrar e de dar espetáculo. Faz parte do meu show, disse Cazuza.
Alguns atletas tentam ser mais verdadeiros e se dão mal. Fazem o que a maioria faz, mas na hora errada. Adriano é um deles. O atleta do São Paulo poderia tomar umas aulas de esperteza com Romário.
Roger está sem prestígio. Ao mesmo tempo em que os times procuram um meia habilidoso, criativo, nenhum quer contratar o jogador, que teria essas qualidades. Além de ser um atleta caro, que produz muito menos do que custa, Roger tem hoje uma imagem de que freqüenta mais o castelo da revista “Caras” do que os treinamentos do clube.
Quando fui convocado pela primeira vez para a seleção, tinha a imagem de que Gerson era um atleta indisciplinado e personalista. Não era verdade. Gerson treinava muito, valorizava o futebol coletivo, cumpria suas obrigações, lutava por seus direitos e não ficava calado com as coisas de que não gostava. Assim deve ser todo profissional. A famosa frase (“O importante é levar vantagem em tudo”) não tem nada a ver com Gerson. Ele, sem prever as conseqüências, disse o que os marqueteiros pediram para que falasse no comercial de um cigarro.
Já do Pelé, tinha a imagem que ele era perfeito dentro e fora de campo. Só era no campo. Fora, ele era como todos nós. Fazia o que todos faziam, mas com discrição e sem ninguém saber. Pelé sempre teve grande preocupação com sua imagem. E vive dela até hoje no seu trabalho de garoto-propaganda.
Falaram tanto que a seleção de 94 não tinha brilho, que era muito defensiva e que só ganhou o título mundial por causa de Romário, que essa imagem irreal se tornou verdade. Apesar de não ter o estilo de jogar de que gosto, era uma equipe organizada, eficiente, tinha um sistema defensivo excepcional, o melhor centroavante do mundo de todos os tempos, o melhor zagueiro brasileiro que vi jogar (Aldair), além de excelentes jogadores em todas as posições.
Faltou somente um grande meia ofensivo, que deveria ter sido Raí. Ele não foi porque jogou fora de posição, muito recuado, marcando pela direita, e não próximo dos dois atacantes, como fazia no São Paulo.
