Por indicação de Felipe Santos

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Cultura & Mídia

Populismo tem limite



Foi um susto. A imprensa divulgou a informação de que a TV Record tiraria do ar os programas Terceiro Tempo e Debate Bola, ambos comandados por Milton Neves. O motivo seria a falta de qualidade das atrações, que não se encaixariam no padrão imaginado pela emissora para sua programação jornalística e esportiva. No final das contas, Milton Neves continuou tendo espaço na grade, mas o alerta foi dado.


A intenção inicial da Record mostra uma preocupação pertinente. A imprensa esportiva brasileira, em geral, tem encontrado no bate-papo informal um nicho muito prolífico para programas fáceis e baratos. Basta ter um estúdio e um grupo de debatedores faladores e dispostos a brigar por qualquer coisa em nome de seus times do coração. Sisudez em excesso é sempre ruim, mas tal nível de informalidade já deixa de ser jornalismo. É espetáculo.


Os programas comandados por Milton Neves elevaram essa fórmula a um novo nível. A pauta parecia feita para um torcedor quase acéfalo, que só quer saber de ver um grupo de sujeitos gritando no ar por causa de uma marcação duvidosa de pênalti ou da eventualidade de uma contratação que nunca se concretizará. Pode-se argumentar que as atrações apenas atendiam ao desejo do torcedor/telespectador, mas o papel da imprensa não é informar, e não fazer show.


Milton Neves é um comunicador talentoso, apesar de tal talento raramente ser utilizado de modo adequado. Os torcedores de fora de São Paulo tiveram pouco contato com sua fase na rádio Jovem Pan. Na época, ele já era adepto dos merchandisings, mas o fazia de modo mais discreto, dentro de um nível razoavelmente comum no rádio. Carismático e de fala fácil, Mílton sempre comandou a jornada esportiva com naturalidade e grande capacidade de criar frases de efeito.


Hoje, o radialista se transformou em personagem de si mesmo. Fazer merchandising deixou de ser um recurso comercial, mas uma razão de viver. Defender o Santos virou causa pessoal, e não uma brincadeira de transmissão. Passar informações se tornou secundário e o único modo de segurar o espectador no meio de tantos testemunhais era com discussões dantescas. Talvez Milton Neves nunca volte a ser o que foi, mas parte da Record, ao menos, acha que ele deveria tentar.


Ubiratan Leal

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