O estadio do Flamengo
Da Tribuna da Imprensa
http://www.tribunadaimprensa.com.br/coluna.asp?coluna=helio
Por Helio Fernandes
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer
Com estádio, S-I-M, com shopping, N-Ã-O
A página inteira que o senhor Marcio Braga publicou em “O Globo” (ele fala sempre em “esclarecimentos do Flamengo”, mas é um hábito antigo do presidencialismo e não apenas esportivo) é profundamente elucidativa. O presidente do Flamengo recuou, passou da ofensiva à defensiva, deixa isso bem visível.
Se Marcio Braga fosse pouquinha coisa mais letrado, diria ou acreditaria que ele segue os clássicos da guerra, que ensinam que não podendo avançar sempre a hora é de recuar. (Esse é o ensinamento dos três maiores generais da História. Não digo os nomes, Marcio Braga ficará desesperado para saber).
Comecem pelo título. Nenhuma alusão ao shopping, grande, bem no alto: “Estádio da Gávea, bom para o Flamengo, bom para o Rio”. Depois, no desdobramento, nenhum destaque para o shopping, que é chamado de “áreas de compras, serviços e lazer”. Ha! Ha! Ha!
A grande batalha de Marcio Braga, perdão, do Flamengo, era o shopping, que iria financiar tudo. Agora, são apresentados QUATRO PROJETOS PARA REVITALIZAÇÃO DA GÁVEA, e o shopping não entra com nome, sobrenome, sinônimo ou pseudônimo.
Vejam os quatro itens
- Construção do Estádio do Flamengo.
- Novas instalações para esportes olímpicos e benfeitorias no parque aquático.
- Expansão e conclusão da Sede Social.
- Construção do Centro de Remo, na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Desolado, abandona a afirmação e se transfere para a demagogia e mistificação. Com o título de “O Estádio do Flamengo, o Engenhão e o Maracanã”, chora que o Flamengo tem o direito de ter o seu estádio. E recita: “Estamos na Gávea desde 1932. O Flamengo tem direito de ter (TEM a TER, na certa foi redigido pelo próprio Marcio) seu próprio estádio neste lugar, uma das áreas mais bonitas e mais valorizadas. Para os sócios e a população”.
Eis um ponto em que não há discordância: o Flamengo tem direito ao estádio. Mas abandone essa demagogia de “servir à população DA CIDADE”. Quando Pedro Ernesto doou o terreno ao Flamengo e a vários outros clubes, em 1931 (foi 1931 e não 1932, Marcio), era EXCLUSIVAMENTE PARA FINS ESPORTIVOS. Na matéria paga, sente-se até a ilusão de que quer apenas o estádio de 30.636 torcedores. (Que exatidão. Puxa, se fosse tão exato assim na administração).
Tive que ler toda aquela tralha, mas vi que Marcio está confessando que não tem jeito de construir o shopping, tanto que não fala nele. Também esqueceu de citar 7 associações de moradores que não aceitam, de modo algum, um shopping naquele entroncamento. Revoltado, magoado, ressentido, logo ele, um extraordinário trabalhador pelo bem da comunidade, escondeu o nome da vereadora Teresa Bergher e do seu marido, deputado Gerson Bergher, intransigentes contra a “capitalização” do nome do Flamengo pelos “homens de negócios”.
Marcio sentiu o golpe de ter que abandonar o shopping. Então, tenta escondê-lo ou disfarçá-lo, encobrindo-o, como um sanduíche MAC qualquer coisa, no meio da mensagem publicitária. (O Marcio não sabe, mas as fábricas de cigarros no Brasil e nos EUA já fizeram isso. Na promoção da “fumaça da morte”, passaram a falar nos “baixos teores”, apresentando o negativo como se fosse positivo).
Com essa tática, Marcio foi perdendo terreno, mas o Flamengo ficou com suas terras, seu patrimônio, sua tradição, sua legenda, “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”.
PS – No Parque Lage, “tombado”, negocistas queriam fazer um cemitério, Carlos Lacerda vetou.
PS 2 – Pedro Ernesto, 75 anos antes, previu a ganância, ou granância, e deixou escrito que ali o esporte de enganar a população só no andar térreo.
PS 3 – Minha posição, da maioria de sócios e moradores cabe na frase: Novo ESTÁDIO, SIM. Shopping, NÃO.

