O sonho do grande evento, por Sócrates

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O sonho do grande evento




Atletas brasileiros conseguem excelente desempenho, entram para a história e nada se faz na tentativa de consolidar o esporte nacional



Sócrates



Passei a semana acompanhando o torneio de Roland Garros, que se realiza na primavera de cada ano na capital francesa. Este é um dos eventos de maior expressão no esporte e atraiu todos os principais tenistas do circuito profissional. Em uma das manhãs em que assistia distraidamente aos jogos, extasiado pela beleza dos estádios, pelo entusiasmo do imenso público que acorria a suas dependências e pela altíssima qualidade dos espetáculos, comecei a refletir sobre a realidade do esporte em nosso País. Cheguei mesmo a sonhar com a possibilidade de um dia ver algo semelhante por aqui. E, apesar de ser apenas um sonho, imaginei que com um pouco de organização e credibilidade poderíamos engajar grandes corporações estabelecidas por aqui para viabilizar o nosso Roland Garros. Uma questão nem tão difícil assim para uma nação do porte da nossa.


Outro grande problema é a falta de competência na gestão esportiva. Nos últimos dez anos, um dos maiores tenistas que este País já possuiu ganhou por três vezes o torneio francês e quase nada se fez por aqui para aproveitar a gigantesca onda de adeptos do esporte que se formou em torno do ídolo. Poderíamos ter criado uma estrutura que favorecesse o aparecimento de novos Gugas com a construção de quadras públicas, acompanhada da presença de educadores. Certamente entre os milhares de praticantes que estariam ocupando esses espaços haveríamos de encontrar vários talentos para perenizar a atração pelo tênis. De esporte de elite, poderia surgir uma atividade popular.


Com essa gama de grandes atletas ficaria mais fácil atrair bons patrocinadores para eventos internacionais, pois o público dos espetáculos seria compatível com o investimento feito. Um bom exemplo comparativo é a prova de Fórmula 1, que acontece todo ano no autódromo de Interlagos, em São Paulo. É um acontecimento gigantesco que exige organização, logística de toda uma cidade, mas os resultados são também excepcionais. A capital paulista é invadida por uma multidão que ocupa todos os quartos de hotel, enche restaurantes e shoppings e traz dividendos incalculáveis para a economia regional. Tudo isso nasceu com nossos pilotos, como Emerson Fittipaldi, seguido por outros grandes talentos como Nelson Piquet e Ayrton Senna. Agora, com a possibilidade de um brasileiro novamente lutar pelo título da temporada, com certeza o interesse pela categoria aumentou e o público que acompanha as provas quase todas as manhãs tem um motivo a mais para não desgrudar da televisão.


Se acontecesse em outros esportes, sem dúvida que poderíamos investir em eventos do mesmo porte, pois os ídolos é que lotam os grandes espetáculos. Entretanto, o mais importante torneio de tênis do País, ainda que de médio porte, é realizado nas quadras de um complexo de hotéis de alto luxo na Bahia, o que dificulta a presença do público entusiasta pelo tênis que possua limitada capacidade financeira.


Temos visto também uma verdadeira romaria em direção aos espetáculos esportivos nos jogos da nossa seleção de vôlei, que nos últimos anos tem vencido quase tudo. Os ginásios brasileiros ficam lotados quando a excepcional equipe se apresenta. Tudo por culpa da excelência que os atletas desenvolveram, que é na verdade o que fascina o público esportivo. Porém, os verdadeiros monstros do nosso esporte na maioria das vezes nascem quase que ocasionalmente, fruto de suas qualidades e força de vontade para superar toda a sorte de obstáculos, principalmente no começo de suas carreiras.


Como a garota brasileira que conseguiu a façanha de fazer a melhor marca do ano no salto em distância. Ela iniciou a vida esportiva em uma pequena comunidade sem o equipamento ideal ou adequado para o desenvolvimento de suas habilidades. Tudo aconteceu graças a um educador esportivo apaixonado pelo que faz. Assim ela pôde adquirir a técnica necessária para competir com alto nível de rendimento. Por certo existem centenas de milhares desses pequenos pelo País afora esperando a oportunidade de mostrar o que podem realizar com suas pernas ou braços e sonhando com alguém para ensiná-los a encontrar um caminho que melhore a perspectiva de vida.  E outros milhões que gostariam de ver em nosso território eventos da grandeza do torneio francês de tênis. Com profundas adequações na questão administrativa e uma política esportiva agressiva, tudo isso poderia se tornar realidade.

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