As convicções elásticas de Flávio Bolsonaro

De O GLOBO
Por BERNARDO MELLO FRANCO
Antes de aderir ao fim da escala 6×1, senador renegou críticas a Bolsa Família e Farmácia Popular
Depois de meses repetindo o discurso do capital, Flávio Bolsonaro resolveu votar a favor do trabalho. Ou melhor, da redução da jornada de trabalho.
Em maio, o candidato do PL descreveu a proposta de acabar com a escala 6×1 como “inoportuna e eleitoreira”. Acrescentou que a ideia teria “grande carga de hipocrisia” e causaria “desemprego em massa”.
Ontem ele abandonou a ladainha e informou que passou a apoiar o texto. “A maioria dos trabalhadores brasileiros querem (sic) o fim da escala 6×1. Então, eu vou votar a favor”, declarou.
Na semana passada, o mesmo Flávio havia chamado a proposta de “oportunista”. Mudou de ideia após visitar o pai, que dita as ordens em sua campanha enquanto cumpre prisão domiciliar em Brasília.
Não é a primeira vez que Flávio mostra ter convicções elásticas sobre políticas para o andar de baixo. O senador já chamou o Bolsa Família de “bolsa farelo”. Hoje promete manter e ampliar o programa de transferência de renda.
Ele também se referiu ao Farmácia Popular como “politicagem”. Agora diz que não acabará com a distribuição de remédios, embora o programa não seja citado nenhuma vez em seu plano de governo.
Sete em cada dez brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1. Se aprovada, a proposta deve beneficiar diretamente 15 milhões de trabalhadores que hoje têm apenas um dia de descanso por semana.
Ao repetir a conversa das entidades patronais, Flávio descrevia o direito à segunda folga como uma perigosa ameaça à economia. Esse discurso faz sucesso na Faria Lima, mas é recomendável não repeti-lo em voz alta na Central do Brasil.
Até a conversão de ontem, Flávio costumava tratar as leis trabalhistas como um estorvo. Seu programa registrado na Justiça Eleitoral fala em “dar mais liberdade a quem trabalha” e defende que “trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de trabalho”.
Num trecho que cheira a naftalina, o documento afirma que “o país precisa se posicionar contra a República Sindical”. A expressão esteve em moda décadas atrás, quando o alvo da turma era o presidente João Goulart.

