Vorcaro, Lula e Flávio Bolsonaro

A revista VEJA surgiu há pouco com a narrativa, amparada por um áudio de Daniel Vorcaro e trechos do que seriam conversas de WhatsApp com supostos operadores do PT, sobre uma possível negociação de delação do banqueiro, na qual ele revelaria o suposto pagamento, em espécie, de R$ 30 milhões ao Instituto Lula, a pretexto de financiar um documentário sobre o presidente no exterior.

Na própria reportagem, quase ao final, há a seguinte ressalva:

“Ao contrário do que sugerem essas conversas, não há qualquer prova de que Lula teve realmente esse encontro com Vorcaro.”

No áudio divulgado, Vorcaro, com a credibilidade que o cerca, afirma que o dinheiro para o filme de Lula seria “errado”, pois teria sido pago “por fora”, enquanto o destinado a Flávio Bolsonaro “não”, porque seria um “patrocínio normal”.

Sabe-se, com o avanço das investigações, que não era.

Tratava-se, segundo as informações reveladas, do financiamento da vida boa do irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, mediante depósitos em um fundo criado especificamente para essa finalidade.

Há, portanto, uma evidente contradição entre a versão apresentada no áudio e os elementos conhecidos da investigação, não desmentida nem adequadamente ponderada pela VEJA.

A PGR descartou a narrativa de Vorcaro por “falta de provas”.

Numa reportagem sobre assunto de tamanha gravidade, às vésperas de eleições presidenciais, a ausência de contextualizações fundamentais compromete a qualidade da informação oferecida ao público.

Seria indispensável deixar claro que os elementos comprovados sobre negociação direta de dinheiro envolvendo um dos postulantes à Presidência dizem respeito a Flávio Bolsonaro, enquanto a acusação contra Lula, até o momento, está sustentada nas declarações de um banqueiro investigado por corrupção, sem comprovação dos fatos supostamente revelados.

De qualquer maneira, urge que a PGR, com a credibilidade também colocada em questão, se posicione.

Há, ainda, dúvidas sobre a integridade da versão divulgada do áudio, levantadas após análise técnica realizada pelo Blog do Paulinho com auxílio de Inteligência Artificial.

São perceptíveis as edições (ao final, a íntegra do material publicado).

O exame retornou as seguintes observações:

“O arquivo possui irregularidades de nível sonoro e mudanças no conteúdo espectral que precisam ser explicadas.”

“Há uma diferença fundamental entre uma edição jornalística — por exemplo, seleção de frases, retirada de pausas e tratamento sonoro — e uma manipulação capaz de alterar o sentido do que foi dito.”

“Para sustentar uma acusação de manipulação, seria necessário demonstrar uma quebra da continuidade acústica ou fonética e, idealmente, confrontá-la com a gravação original.”

“O resultado mais sólido, neste momento, é que existem cinco regiões internas que merecem exame pericial aprofundado, acompanhadas de variações mensuráveis de volume e espectro.”

“Esses achados justificam questionamentos sobre a edição, mas ainda não provam adulteração do conteúdo.”

“No gráfico, as faixas destacadas representam os cinco intervalos que selecionei para investigação.”

Seria importante que VEJA esclarecesse se esta é a única versão do áudio que possui, aparentemente editada, com os cinco possíveis cortes apontados no gráfico, ou se existe outra, mais completa.

Caso seja o único arquivo, é urgente saber se chegou assim à redação ou se, por critérios próprios, teria sido manipulado posteriormente.

Todo cuidado é pouco quando se publica uma versão de Daniel Vorcaro.

Também quando o que está em jogo é a preservação da democracia.

Não se trata de interferir no trabalho jornalístico da revista, que, por óbvio, não pode se omitir diante de assunto de tamanha gravidade, mas de entender se houve precipitação ou falhas de checagem que possam, eventualmente, alterar substancialmente a realidade da história contada.


Abaixo, o áudio de Vorcaro, publicado por VEJA, com fortes indícios de edição e a declaração falsa sobre o dinheiro do esquema ‘Dark Horse’:

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.