Flávio reedita mentira do pai sobre modelo de votação

Da FOLHA
EDITORIAL
- Senador espalha desinformação sobre as urnas eletrônicas e depois nega ter atacado o sistema eleitoral
- O padrão é tão previsível que seria cômico, não representasse risco à democracia; campanha do pré-candidato enfrenta problemas em série
Desde que foi ungido pelo pai, preso por tentativa de golpe de Estado, como sucessor na disputa presidencial deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstra fidelidade aos preceitos de seu clã.
O padrão, que inclui mentira e dissimulação, é tão previsível que seria cômico, não fosse um perigo para a democracia, que o primogênito do apenado Jair Bolsonaro repetisse as estocadas do ex-presidente contra o sistema de votação eletrônica do país.
Ainda assim, não causa espanto que Flávio tenha copiado o seu progenitor ao chamar um grupo de embaixadores para espalhar mentiras sobre as urnas.
Ele disse que os aparelhos são os mesmos usados na suspeita Venezuela, deixando no ar a ideia de que são fraudulentos. A fabricante em questão não tem relação com os equipamentos.
Flávio mais uma vez incidiu na dissimulação, que tem sido corriqueira na sua caminhada eleitoral, e negou ter atacado todo o sistema, buscando vacinar-se contra eventuais punições.
Um discurso para desacreditar as urnas, também diante de representantes estrangeiros, de seu pai em 2022 serviu de base para um processo que o tornou inelegível. A precaução do filho mais velho para evitar o mesmo desfecho do progenitor é óbvia.
Flávio já divagou nesta Folha sobre o “uso da força” se a Justiça derrubar a anistia que pretende conceder ao pai, caso seja eleito; em abril, levantou dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral em evento ligado ao trumpismo nos Estados Unidos.
A relação com o ecossistema de desinformação de Donald Trump foi evidenciada com a exortação aos embaixadores para que seus países enviassem observadores para supostamente garantir a lisura do pleito brasileiro, como se isso não ocorresse sempre. Em 2022, foram cerca de 150 credenciados a acompanhar o processo.
Trump acaba de lançar mão de tática semelhante, ao acusar a China de manipular a disputa que perdeu em 2020 para tentar questionar previamente a provável derrota que amargará no pleito legislativo de novembro.
Flávio sente o calor das dificuldades. Sua campanha enfrenta problemas em série, a começar pela relação, ainda longe de explicada, que manteve com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a rixa com a madrasta Michelle.
Como cereja do bolo, veio o novo tarifaço de Trump. Ou “Tariflávio”, como batizado nas redes sociais, dada a movimentação explícita do irmão Eduardo e seus comparsas para tentar ver o Brasil punido pelo americano.
Flávio tentou se descolar da medida, até porque ela fortalece Lula, que já havia capitalizado o discurso da soberania nacional durante o tarifaço de 2025. O petista já incorporou a retórica anti-Trump à campanha.
Não parece casual, portanto, o isolamento político do senador, que não tem conseguido atrair aliados nem sequer para compor a chapa presidencial, a ser ratificada no próximo sábado (25).

