Vai começar a Copa do Mundo das bets

Da FOLHA

Por DAVID NEMER

  • Brasileiros depositarão suas esperanças na seleção, mas milhões também arriscarão aluguel, salário e reservas
  • Não se trata apenas de adicionar entretenimento, mas de transformar paixão em transação

Na Copa do Mundo de 2026, que começa nesta quinta-feira (11), o Brasil buscará o seu sexto título. Mas também entrará no maior evento de apostas que o país já viu.

No Brasil, o Mundial é mais do que um torneio: é parte da identidade nacional. Em um país onde crianças jogam bola nas ruas, é um dos raros momentos em que milhões compartilham a mesma expectativa. Mas a forma de viver essa emoção mudou.

Durante boa parte da história do futebol, torcedores vibravam com gols, defesas, dribles, viradas e vitórias. Agora, as plataformas de apostas online fragmentaram a partida em centenas de pequenas transações financeiras. Não se aposta apenas no placar final, mas também em cartões, escanteios, laterais, chutes a gol, faltas, defesas e em quase todas as estatísticas produzidas pelo jogo.

Essa mudança altera o significado emocional do futebol. Um torcedor pode comemorar um escanteio contra o próprio time se isso favorecer sua aposta. Pode torcer para que um zagueiro receba um cartão amarelo, mesmo que isso prejudique sua equipe. Pode-se importar menos com o estilo de jogo do Brasil e mais com a possibilidade de haver acréscimos para recuperar dinheiro.

Não se trata apenas de adicionar entretenimento. Trata-se de transformar paixão em transação. A magia do futebol vem da esperança compartilhada de um gol. As apostas quebram esse vínculo. Uma falta deixa de ser apenas uma falta; vira uma oportunidade de ganho. Um escanteio deixa de ser parte do jogo; vira uma chance de saque.

Isso é especialmente grave no Brasil, onde as apostas online já fazem parte da vida cotidiana. As bets foram legalizadas em 2018, mas as regras efetivas vieram tarde demais. Entre 2018 e 2024, as empresas cresceram sem controle efetivo, ocupando o futebol, as redes sociais e a publicidade. Quando o mercado regulado começou, em 2025, as apostas já estavam por toda parte.

Os números revelam a escala do fenômeno. Em 2025, o Brasil ocupava o quinto lugar no mundo em receita com apostas online, segundo a Regulus Partners. Uma pesquisa da NielsenIQ apontou que cerca de 26,3% dos domicílios participaram. No último ano, 39,5 milhões de brasileiros usaram plataformas de apostas. No primeiro trimestre de 2025, os sites do setor registraram mais de 5 bilhões de visitas. Dados do Banco Central indicaram que brasileiros movimentavam até R$ 30 bilhões por mês nessas plataformas.

Os custos sociais também são evidentes. De acordo com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, entre os apostadores, 19% disseram ter gastado parte da renda com apostas; 41% deixaram de fazer outras compras; 17% deixaram de pagar alguma conta; e 29% foram parar em listas de inadimplência por causa das bets. O gasto médio mensal foi de R$ 187; entre apostadores de baixa renda, R$ 151,98. Para famílias pobres, esse dinheiro poderia significar comida, transporte, fraldas, luz ou aluguel. Nas favelas, apostar raramente é apenas um passatempo. Muitas vezes aparece como esperança: uma tentativa de esticar o dinheiro quando o trabalho não paga o suficiente.

A Copa de 2026 ampliará tudo isso. Haverá jogos todos os dias, orgulho nacional, anúncios com celebridades, dicas de influenciadores, links para apostas e mercados ao vivo durante as partidas. O torneio será vendido como uma festa do futebol. Para as empresas de apostas, também será uma grande oportunidade de lucro. Isso já aparece: após ser convocado, Neymar publicou um único story celebrando a convocação e fazendo propaganda para uma bet.

É uma ironia cruel. Brasileiros depositarão suas esperanças na seleção, mas muitos também arriscarão o aluguel, o salário e as reservas de emergência em apostas em cartões, faltas e escanteios. Nesse jogo, os verdadeiros vencedores não são os torcedores e sim as plataformas.

A Copa deveria nos lembrar por que o futebol importa. Sua beleza não está na quantidade de apostas possíveis. Está no gol impossível, na emoção compartilhada, na alegria de vencer junto e na dignidade de perder sem perder o dinheiro necessário para viver.

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