Operação contra Ciro Nogueira rompe blindagem de políticos no caso Master

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Pelas provas citadas por André Mendonça, chefão do PP não pode reclamar da sorte

Demorou, mas a Polícia Federal enfim bateu à porta de Ciro Nogueira. O senador estava na mira desde o início do escândalo do Master. Numa mensagem célebre, Daniel Vorcaro o descreveu como um dos “grandes amigos de vida”.

Para o ministro André Mendonça, a relação extrapolava a “mera amizade”. De acordo com as investigações, Ciro recebia mesada de até R$ 500 mil. Além disso, usava o cartão do banqueiro para pagar voos internacionais, hotéis de luxo e restaurantes estrelados.

Ciro deixou rastros da dobradinha. Foi dele a proposta de elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito. Um incentivo e tanto para bancos que fraudam o sistema financeiro com títulos sem lastro.

O texto assinado pelo senador já havia sido apelidado de “emenda Master”. Agora sabe-se que foi redigido por funcionários do banco e depositado num envelope em nome de Ciro. “Saiu exatamente como mandei”, festejou Vorcaro. O diálogo atesta a captura do cargo público para fins particulares.

Sempre falante, o chefão do PP passou o dia em silêncio depois de ser acordado pela polícia. Seus advogados disseram que ele “repudia qualquer ilação de ilicitude”.

Ciro já foi conhecido como o príncipe do baixo clero. Habilidoso, virou presidente de partido e se projetou como um dos maiores articuladores do Centrão. Nos últimos anos, costurou a aliança do grupo com o bolsonarismo. Foi chefe da Casa Civil de Jair e era cotado como candidato a vice de Flávio. Animado, o senador chegou a definir o arranjo como “chapa dos sonhos”.

Para a bancada do Master, a operação de ontem pode ter sido o início de um pesadelo. A PF ainda não havia encostado em políticos que alugaram seus mandatos ao trambiqueiro da Faria Lima. A fila é extensa e suprapartidária. Além de congressistas, deve pegar governadores que despejaram dinheiro de aposentados nos fundos de Vorcaro.

Pela quantidade de provas citadas por Mendonça, Ciro teve sorte. O senador pode ter perdido algumas horas de sono, mas poderá compensá-las em casa. E sem tornozeleira eletrônica.

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