Os ‘esqueletos’ de Flávio Bolsonaro

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Não demorou para que o passivo do senador – sobre rachadinhas e milicianos – começasse a aparecer. E o candidato, ao dizer que não sabia de nada, escolheu ofender a inteligência do eleitor
Até aqui, o senador Flávio Bolsonaro estava muito confortável na condição de principal candidato da oposição à Presidência. Ungido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, dono de invejável potência eleitoral, Flávio nem precisou se mexer muito para alcançar excelente pontuação nas pesquisas de intenção de voto, a ponto de instaurar o pânico nas hostes petistas e de alimentar prognósticos exageradamente otimistas sobre suas chances de vitória.
O problema, para o senador e seus animados cabos eleitorais, é que a eleição ainda está distante, e em algum momento o candidato começaria a ser questionado sobre seus projetos, suas qualidades e, não menos importante, seus esqueletos no armário. E nem demorou muito: em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., no dia 6 passado, Flávio foi questionado sobre as investigações que apontaram a prática de “rachadinha” em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) quando era deputado estadual.
Ao contrário do que o nome pitoresco pode sugerir, “rachadinha” não é prática desimportante. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) ofereceu denúncia contra o senador sob a acusação de que ele seria o líder de uma organização criminosa dedicada à apropriação de salários de assessores. Calcula-se que a “rachadinha” tenha desviado R$ 6 milhões em recursos públicos para os bolsos de seus beneficiários. No centro do esquema criminoso estava, segundo o MPRJ, o notório Fabrício Queiroz, principal assessor de Flávio na Alerj, ex-policial militar e longa manus do clã Bolsonaro.
Tudo isso está fartamente documentado, conforme revelou o Estadão quando trouxe o caso à luz, em 2018. Mesmo assim, Flávio Bolsonaro preferiu classificar as investigações como “espuma” destinada a “destruir” sua reputação. O senador insistiu na tese de que Queiroz agiu por conta própria, ou seja, sem seu conhecimento ou anuência.
Ora, se verdadeira, essa versão é um atestado de incapacidade de Flávio para a administração pública. Se falsa, a alegação reforça ainda mais a suspeita de que Flávio participou diretamente de um esquema de peculato, entre outros crimes.
Para piorar, durante a entrevista, o senador se jactou de não ter sido réu em ação penal, dando a entender que teria sido inocentado. Trata-se de uma distorção da realidade factual. Os procedimentos criminais abertos contra ele não foram suspensos ou encerrados por reconhecimento de sua inocência, mas por decisões de natureza estritamente processual.
Noutras palavras: assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode dizer que foi “inocentado” das acusações que o levaram à cadeia no âmbito da Lava Jato, porque seu processo foi apenas anulado em razão de erros processuais, Flávio Bolsonaro também não foi “inocentado” de nada, pois ele nem sequer foi julgado, também graças a filigranas jurídicas.
Mas há outros esqueletos relevantes no armário do sr. Flávio Bolsonaro, relembrados na entrevista. Por exemplo, sua perturbadora relação com milicianos do Rio de Janeiro. Em discurso em 2007, o então deputado estadual qualificou a milícia como “novo tipo de policiamento”, em que “um conjunto de policiais (…), regidos por uma certa hierarquia e disciplina”, busca, “sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”. E acrescentou: “Eu, por exemplo (…), gostaria de pagar R$ 20, R$ 30, R$ 40 para não ter meu carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, de ter um filho empurrado para as drogas”.
Em outras palavras, Flávio Bolsonaro considera legítimo que policiais se juntem para cobrar de moradores de favelas pelo serviço de segurança que eles já recebem salário do Estado para executar. É o elogio à máfia.
Não bastasse isso, Flávio condecorou diversos policiais suspeitos de pertencerem às milícias e aboletou em seu gabinete na Alerj a ex-mulher e a mãe de um dos mais cruéis milicianos do País, Adriano da Nóbrega.
Assim como no caso das “rachadinhas”, o hoje senador negou qualquer relação com milicianos, dizendo-se vítima de “falsas narrativas”. Pode até ser, mas parece claro que a zona de conforto de Flávio Bolsonaro é bem menor do que ele imaginava.
