Jesus: o que estudos históricos já mostraram sobre Cristo

Do ESTADÃO
Por EDISON VEIGA
Entendimento historiográfico é de que figura fundamental do cristianismo existiu, mas não igual à representação frequente em Hollywood
Um líder que congregava diversos seguidores e movimentava a sociedade na região de Jerusalém foi executado pelo poder romano, que dominava aquele território, há pouco menos de 2 mil anos. Como era praxe na época, a sentença capital aconteceu por crucificação.
Esta é uma verdade pouco questionada por historiadores, arqueólogos e cientistas contemporâneos. Jesus existiu e arrebanhou um número de seguidores que viram nele uma possibilidade de viver sob um novo reino, mais justo e pacífico do que aquele acostumado aos grilhões de Roma.
“Existe um consenso tanto entre religiosos quanto entre historiadores ateus ou de outras religiões de que há evidências históricas para a existência de Jesus”, diz o escritor Oliver Dara, autor do livro Jesus Me Aceitou! E Agora?. “Sua existência, para a história, é tão aceita quanto a de vários imperadores romanos.”
Mas não há objetos cientificamente comprovados como ligados à existência de Cristo tampouco um registro em forma de documento — seria anacrônico pensar, por exemplo, em certidão de nascimento ou de óbito.
“A existência de Jesus é sustentada, do ponto de vista histórico, por um conjunto convergente de fontes antigas”, comenta a escritora e estudiosa de teologia Raquel Boccaletti.
Fisicamente, Jesus devia ser muito diferente da imagem cristalizada pela religiosidade cristã eurocêntrica. “Devia ter aparência de um homem do Oriente Médio daquele tempo. Isto significa pele retinta, cabelos pretos e curtos, estatura média”, descreve Dara. “Alguém do povo e acostumado ao trabalho braçal ao ar livre. Não é um Jesus de Hollywood, portanto”, diz.
“O mais honesto é afirmarmos que ele tinha a aparência comum de seu povo. E não a imagem europeia que acabou difundida séculos mais tardes”, acrescenta Raquel.
Nazaré
De origem pobre, Jesus teria passado a maior parte de sua curta vida — de pouco mais de 30 anos — na cidade de Nazaré, pequeno povoado na periferia da periferia do império romano. E nisto está o primeiro ponto que comprova que os relatos sobre sua existência têm lastro com a realidade.
Conforme o historiador e arqueólogo André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, há evidências diretas e indiretas sobre a real existência de Jesus enquanto figura histórica.
Indiretamente, estão as pesquisas arqueológicas que comprovam que Nazaré era uma aglomeração urbana na região da Galileia na época em que Jesus teria vivido. “Era um pequeno centro que congregava comunidade campesinas”, diz ele, autor de, entre outros livros, Jesus Histórico: Uma Brevíssima Introdução.
“Ficou evidenciado que não era uma mísera aldeia, mas basicamente um centro que tinha em torno e si pequenos mercados e aldeias campesinas”, continua Chevitarese.
De acordo com o historiador, desde a segunda metade do século 2º a.C., Nazaré fazia parte de um conjunto de terras assenhoradas pelos macabeus.
“A evidência indireta é esta: Nazaré já existia”, afirma Chevitarese. E o trabalho arqueológico ali realizado permite inferir sobre características das casas e do modo de vida daquele tempo. Eram espaços pequenos, muito mais para servir de abrigo do que para ter o conforto de uma habitação. E a cidade tinha uma economia pujante para seu tempo, com uma mescla entre atividades agrícolas, mineração em pedreiras, fabricação de vidros e pequena produção têxtil.
Por outro lado, arqueólogos notaram a completa ausência de edificações públicas, como escolas, sinagogas, teatros ou mesmo algo equivalente a uma prefeitura ou uma sede governamental. “Isso reforça o que já sabíamos: eram culturas marcadamente campesinas e iletradas”, avalia Chevitarese. “Estudos demonstram que sociedades assim eram iletradas.”
“Ter acesso ao estudo formal nessa região e nesse período era privilégio de uma pequena minoria, geralmente quem integrava a elite religiosa. Um filho de um carpinteiro, alguém de classe baixa, não poderia”, afirma o pesquisador Thiago Maerki, associado da Hagiography Society, nos Estados Unidos. Para Maerki, talvez ele até soubesse ler e escrever, mas de forma básica e popular.
Oliver Dara argumenta que muitos estudiosos acreditam que “ele tinha um letramento funcional” embora privilegiasse a oralidade.
Formação religiosa
“Jesus era uma liderança popular judaica que foi percebida por seus seguidores como um candidato messiânico”, comenta Chevitarese.
“Foi um judeu, um galileu, envolvido profundamente nas tensões de seu tempo”, diz Dara. “Pregava uma reforma estrutural e social por completo.”
“Não é apenas um líder popular com motivação política e social, mas um homem profundamente religioso”, completa Chevitarese.
Essa formação religiosa, acredita-se, era menos derivada de estudos das escrituras e muito mais consequência de um meio cultural. Evidências arqueológicas mostram que em Nazaré havia a prática de uma cozinha kosher, o que comprova que a sociedade que ali vivia na época de Jesus era profundamente atenta aos costumes religiosos judaicos.
“Ele se tornou uma liderança popular”, diz Chevitarese. Isto teria acontecido diante da maneira como ele catalisou a insatisfação dos mais pobres de seu tempo diante do fato de que poucos usufruíam de uma vida nababesca enquanto a maioria lutava para sobreviver.
Historiadores da época
A outra camada trazida por Chevitarese, a das evidências diretas, traz referências a Jesus que transcendem os textos que depois vieram a compor a Bíblia e, portanto, têm sua compreensão influenciada pela fé. São as menções a ele feitas por historiadores não cristãos.
É o caso do romano Cornélio Tácito (56-118), publicamente avesso aos cristãos, que cita os seguidores de Jesus como aqueles que procuravam seguir os ensinamentos de “Cristo, que havia sido executado no reinado de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos”.
Outro pesquisador antigo recorrentemente citado é Flávio Josefo (37-100), que menciona Jesus duas vezes em sua obra Antiguidades Judaicas.
Segundo explica Maerki, os relatos de Josefo são considerados isentos. “Ele foi um fariseu, de origem sacerdotal [judaica] e se interessava muito pela história judaica”, aponta.
“Naquela época, o Império Romano tinha 50 milhões de habitantes. Desconhecemos informações sobre mais de 99% deles”, diz Chevitarese. “Um dos raros casos de menção em registros é o de Jesus. E isto reforça a ideia de que ele efetivamente existiu.”
Dos textos considerados religiosos, historiadores costumam analisar as cartas escritas pelo apóstolo Paulo de Tarso (5 a.C. – 67 DC) como as que guardam mais referências à realidade. Isto porque elas seriam os textos mais antigos a constar no Novo Testamento bíblico — e o autor chegou a conviver com alguns dos que conheceram pessoalmente Jesus.
“As cartas de Paulo foram escritas cerca de 20 anos depois da crucificação de Cristo e citam a interação com pessoas que o conheceram pessoalmente”, diz Dara.
Na missiva endereçada à comunidade dos gálatas, povo de origem celta que habitava uma região na atual Turquia, ele relata que foi “a Jerusalém para ver Pedro”, um dos primeiro seguidores de Jesus, membro do grupo original que tinha convivido com ele.
Conta Paulo de Tarso que estiveram juntos por 15 dias, período no qual ele também conversou com Tiago, outro dos próximos de Jesus. “Ou seja, as informações reforçam a existência desse nazareno chamado Jesus”, diz Chevitarese.
