Circo Corinthians e seus palhaços

Ontem, a reunião do Conselho Deliberativo do Corinthians transformou-se num picadeiro em que os palhaços, de antemão, já haviam decorado o roteiro — aplicado com canastrice — para impedir que conselheiros fossem expostos na votação da alteração estatutária que poderia, ao inserir o voto do “Fiel Torcedor”, democratizar as próximas eleições alvinegras.

As ofensas tornadas públicas serviram como tortas na cara em um espetáculo circense.

O presidente Osmar Stabile, evidentemente combinado com seus pares, subiu ao púlpito dizendo, na maior cara de pau, que não queria “colocar na imprensa” — numa reunião com quase trezentas testemunhas — o que todos sabem ocorrer há algum tempo: que é um mandatário fraco, dominado, entre outros, pelas ações de Romeu Tuma Junior, presidente do Conselho Deliberativo.

“Vou trazer uma situação difícil, mas tenho que colocar no Conselho ao invés de colocar na imprensa.”

“A gente tem passado por uma situação difícil na administração por interferência constante do presidente do Conselho Deliberativo.”

“Ele tenta a todo momento interferir na gestão.”

“Na sexta, ele chegou até mim enquanto eu jantava e disse: ‘Ou você faz o que eu quero ou vou te f…’. Foram essas palavras.”

“Não posso administrar o Corinthians com pessoas me tratando dessa forma. É muito lamentável. Eu tenho testemunha aqui.”

“Fora isso, tenho esses documentos enviados constantemente, toda semana, solicitando informações sobre as decisões que estou tomando.

Eu tomo as melhores decisões para o Corinthians. Quero dizer o seguinte: a interferência é constante. Não posso aceitar mais isso, não aceito desde o começo.

Quem administra o Corinthians é o presidente; você não tem que saber nada do que acontece.

Não aceito essa interferência, ter que responder sempre 30, 40, 50 pontos. Não posso aceitar isso, gente. Ou mudamos o Corinthians e resolvemos nosso problema internamente…”

Constrangedor.

Stabile falou sobre Tuma porque está rompido com ele, mas poderia elencar uma dezena de outros conselheiros a quem também obedece ou tem medo de contrariar.

O cartola esperou exatamente o momento da votação, sabendo que a grave denúncia — de ameaça — inviabilizaria a continuidade da reunião, salvaguardando seus pares de precisarem se expor contrários, como ele próprio é, ao voto do Fiel Torcedor.

Até o momento, apesar da “indignação” demonstrada, o Presidente do Corinthians não formalizou boletim de ocorrência nem oficiou — como seria sua obrigação — a Comissão de Ética da agremiação.

Isso não quer dizer que tenha mentido.

Muito provavelmente, quase tudo o que Stabile e Tuma dizem um do outro deve ser verdade, o que revela a atual situação em que o Corinthians se encontra.

Em meio à confusão, o presidente do Conselho, embasado no artigo 45, inciso II, letra “a”, do atual estatuto, encerrou a reunião e anunciou que a reforma estatutária será decidida diretamente pela Assembleia Geral.

Quase todos saíram satisfeitos.

Com boa parte dos eleitores associados dominados por conselheiros, seria surpreendente que a democratização do pleito corinthiano avançasse.

Mas este não era o “X” da questão nessas manobras.

O objetivo era evitar que o torcedor soubesse quais seriam os conselheiros contrários à alteração.

E isso foi conseguido.

Agora, muitos discursarão ‘apoio às mudanças’, quando, pelos bastidores, há dias trabalham para que tudo permaneça exatamente como está.

É importante lembrar que não é a primeira vez que Osmar Stabile demonstra desapreço pela democracia, como revelado no episódio em que assumiu a autoria de um vídeo de exaltação ao golpe militar de 1964.


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