Uma praga que assola o esporte: machismo disfarçado de piada

Da FOLHA
Por MARINA IZIDRO
- Seleção dos EUA de hóquei no gelo ofusca seu ouro olímpico ao debochar com Trump da equipe feminina, também campeã
- Se não basta não ser racista e é preciso ser antirracista, o mesmo vale para misoginia
Para quem ainda acredita que política e esporte não se misturam, poucas cenas dos Jogos Olímpicos de Inverno superam o que aconteceu depois da final do hóquei no gelo.
Na última competição de Milão-Cortina, a seleção masculina dos Estados Unidos foi campeã em cima do arquirrival Canadá. Minutos depois, eufóricos, tomavam uma merecida cerveja no vestiário para comemorar a primeira medalha de ouro em 46 anos.
O presidente Donald Trump ligou para dar os parabéns. Os convidou para irem à Casa Branca e emendou, em tom de piada: “Vocês sabem que vou ter que levar o time feminino também, né? Senão provavelmente vou sofrer um impeachment”, disse, em referência à seleção feminina campeã olímpica dias antes. A reação foi uma explosão de risadas debochadas entre praticamente todos os jogadores.
O ato infelizmente não surpreende. Poderia ter acontecido em qualquer vestiário de qualquer esporte em qualquer parte do mundo. Só que o foco desta coluna não é política nem Trump. O que é difícil entender é: por que, de competições esportivas a ambientes de trabalho, ainda é considerado tão normal diminuir e humilhar mulheres? Por que, especialmente em grupo, é raro alguém combater uma fala machista?
O assunto imediatamente ganhou as páginas esportivas mundo afora e os machões tiveram que se pronunciar. O capitão do time lamentou a situação; outros desconversaram. O autor do gol do título disse que “as pessoas estão tentando achar um motivo para colocar-nos para baixo”. Mas, peraí, o que tirou o foco da conquista não foi justamente a situação criada por vocês? Como tudo hoje em dia envolve política, estão sendo vistos como heróis por uns e idiotas por outros. Só depois da divulgação do vídeo e da repercussão negativa alguns demonstraram arrependimento.
Apenas colocando em contexto: a equipe feminina dos Estados Unidos é extremamente vitoriosa. Subiu no pódio nas últimas oito edições, desde que a modalidade entrou no programa olímpico para elas. Conquistaram três ouros, quatro pratas e um bronze. Os homens não ganhavam desde 1980.
A capitã, Hilary Knight, que disputou sua quinta Olimpíada e se tornou a maior goleadora da história do seu país, entre homens e mulheres, chamou, muito educadamente, a frase de Trump de “piada sem graça”. Knight também precisou repetir o óbvio: que mulheres não são inferiores e seus feitos não deveriam ser ofuscados. Elas recusaram o convite para ir à Casa Branca.
Normalizar o desprezo por mulheres, justificando-o como brincadeira ou opinião, pode matar. A cada dez minutos uma de nós é morta por parceiros ou familiares ao redor do mundo, segundo a ONU. Fora o que não entra em estatísticas oficiais de feminicídio.
Nesta semana, a ministra do STF, Cármen Lúcia, disse que “nós, mulheres —mesmo eu, branca, mesmo eu, juíza—, somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. (…) Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente”.
Assim como não basta não ser racista —é preciso ser antirracista—, é preciso ser contra o machismo e a misoginia. Uma frase apenas, repudiando uma fala sexista, pode mudar o rumo da conversa, de comportamentos. E este é o homem que de fato as mulheres respeitam.
