O sertanejo, a autoajuda e a ajudinha do Estado

Da FOLHA

Por GUSTAVO ALONSO

  • Prefeituras devem ditar o que devemos ouvir?
  • É hora de proibir shows e palestras motivacionais

Na semana passada uma polêmica tomou conta de Sergipe. No dia 20 de janeiro o cantor Leo Chaves realizou uma palestra no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju, durante a abertura da “Jornada Pedagógica da Rede Pública Estadual de Ensino 2026”. A fala custou aos cofres públicos R$ 143 mil.

No mesmo dia da fala do cantor Leo Chaves no evento em Aracaju, professores e gestores sergipanos assistiram a uma palestra virtual do professor Mário Sérgio Cortella, famoso nas redes sociais, que recebeu R$ 53.900 dos cofres estatais. O tema da palestra foi “Do medo à ação: como transformar a tecnologia em aliada na sala de aula”. O cantor sertanejo palestrou sobre “A grande arte de se reinventar”, título de um de seus livros.

Leo Chaves é parceiro do irmão na dupla Victor & Leo, nacionalmente famosos desde pelo menos 2006. O irmão Victor Chaves foi o maior arrecadador de direitos autorais por quatro anos consecutivos (2009 a 2012). Grandes sucessos como “Borboletas”, “Tem que ser você” e “Deus e eu no sertão”, cantados na voz de Leo Chaves e seu irmão, construíram a sensibilidade das multidões nacionais e elevaram o nível da música sertaneja.

Em 2018 o irmão Victor Chaves viveu um escândalo na vida privada que extravasou para a vida pública. Imagens de segurança do elevador do condomínio onde ele morava com a esposa e familiares captaram cenas de violência doméstica. O cancelamento de Victor levou a uma pausa na carreira da dupla, que se encontrava no ar como jurados do programa The Voice Kids, da Globo.

Foi nesse momento que Leo Chaves viu-se na necessidade de se reinventar. Além de cantor, Leo era dono de uma fazenda de criação de gado em Uberlândia (MG). Mas isso não era suficiente, e ele resolveu tornar-se palestrante motivacional. Para isso estudou e escreveu um livro.

O livro “A grande arte de se reinventar: As 7 habilidades que podem mudar a sua vida” foi lançado em 2019 com prefácio do historiador Leandro Karnal, outro famoso palestrante. Trata-se de um típico exemplar da autoajuda nacional, com hipóteses individualistas e voluntaristas. Na página 16, diz: “Se você deseja que o mundo lhe traga mais oportunidades, mude sua forma de enxergá-lo. (…) Quem não busca a constante mutação, se recriando e se repaginando, está na contramão daquilo que determinada a própria existência”

Na introdução até parece que o livro poderia dar uma ótima autobiografia, pois Leo parece disposto a analisar seus tropeços ao longo da vida: “Durante minha jornada, muitas vezes eu sonhei com a fama, com o melhor carro e com uma bela mansão, pensando que a partir disso estaria plenamente feliz. Entretanto, nada disso me trouxe tanta realização”.

Mas qualquer análise aprofundada dos dilemas de artistas sertanejos, de uma vida artística complexa, de cancelamento de familiares, da trajetória do barzinho à fama nacional, se esvai nas saídas simples e discurso abstrato que Leo Chaves constrói em seu livro.

Da notória tensa relação com o irmão, quase nada é falado. Apenas cinco citações genéricas. Leo não quer analisar o mundo ao redor, apenas falar de sua abstrata transformação, sem dar nome aos bois. Numa viagem ególatra típica da autoajuda, diz que quer ter “inteligência de transformar tudo à sua volta e de influenciar positivamente as pessoas a partir do seu pensamento e da sua visão”.

Leo não quer saber de mudanças estruturais: “Não cabe uma proposta de mudança coletiva, porque cada um de nós precisa primeiramente produzir uma metamorfose em si mesmo”, afirmou em seu livro.

Como palestrante, Leo pode vender o que quiser. O problema surge quando este tipo de conteúdo é comprado por agentes públicos. Respondendo às críticas, a Secretaria de Educação de Sergipe afirmou que Leo Chaves é “amplamente reconhecido em âmbito nacional”. E que “o palestrante possui atuação consolidada em eventos educacionais, corporativos e sociais destacando-se por uma metodologia própria que articula vivência, prática, sensibilidade humana e comunicação inspiradora”. A especialização referida é um “bacharelado em Coaching pela Florida Christian University e formação em Pedagogia”.

Em seu livro, Leo se diz certificado em programação pessoal pela Sociedade Brasileira de Neurolinguística. Nos últimos anos afirma que vem se aprofundando nos estudos de inteligência emocional, gestão da emoção, filosofia, educação familiar e escolar, coach e pedagogia. Haja reinvenção para dar conta de tanta coisa!

Mas o que faz um órgão estatal gastar o equivalente a mais de dois anos de salário de um professor estadual em começo de carreira com uma palestra de uma hora e 40 minutos? A contratação foi feita sob regime de inexigibilidade de licitação. O argumento é que, como não há dois produtos iguais no mercado, no caso a palestra de Leo Chaves, o Estado se vê obrigado a pagar o preço pedido.

É a mesma justificativa que prefeituras usam para contratar artistas caros para shows. Com suas palestras, Leo inaugurou um segundo mercado para os cantores sugarem as tetas do Estado.

Tudo isso levanta uma questão espinhosa. Será que não é hora de proibir shows (e palestras motivacionais) bancadas por órgãos estatais? Quase sempre essa discussão leva a cada grupo defender seus artistas e palestrantes “corretos”, numa espiral de falta de bom senso. Alguns argumentam que é papel do Estado promover a cultura. Outros insistem que os shows movimentam a renda dos municípios. E que palestrantes famosos atraem o público.

Mas o custo é alto demais. Em última instância, é o Estado dizendo o que devemos ouvir, seja música ou palestra. E inflacionando o mercado musical e motivacional.

Em 2006 proibimos os showmícios. É hora de proibir shows e palestras motivacionais.

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