Desde Aidar, São Paulo tornou-se esgoto da cartolagem nacional

Antes visto como um clube exemplar, embora, na realidade, o São Paulo apenas soubesse, melhor do que os outros, esconder seus problemas, desde a gestão Aidar, caiu de nível profundamente.

Não à toa, os resultados esportivos, que deixaram de ser prioridade, acompanharam a derrocada.

Nesse contexto, deixa de surpreender que duas pessoas extremamente próximas ao presidente Casares – uma delas, com quem ele dividia a cama – tenham operado, com a ajuda de um cartola reincidente em embolsar dinheiro do Tricolor, um esquema de ingressos típico de ladrões “pé de chinelo”.

O camarote pelo qual circulou o dinheiro sujo, fisicamente, é vizinho do gabinete do mandatário.

Afastá-los – os executores – após a exposição pública no Globo Esporte parece uma manobra para esconder os demais participantes (mencionados nos áudios), possivelmente com um mandante de relevância.

O Blog do Paulinho sempre suspeitou das razões que levaram um executivo da Record TV a trocar de emprego, largando um salário dez vezes maior, sem que isso impactasse nas finanças da família.

Talvez as diversas possibilidades no SPFC tenham superado a meta anterior – se for o caso.

Em dezembro de 2015, Douglas Schwartzmann, um dos espertalhões flagrados, foi citado em áudio tão imundo quanto, tendo como personagens Carlos Miguel Aidar, ex-presidente afastado sob acusações de corrupção, e Ataide Gil Guerreiro.

“O Douglas está pedindo comissão em tudo. Ele veio aqui e descaradamente”, diz um dos trechos.

Lá se vão dez anos.

Apesar disso, o prestígio e as negociatas continuaram.

É improvável, quase impossível, que Casares não soubesse desta fama, o que leva a crer que a utilização de Douglas na atual gestão teria, de fato, objetivos nada republicanos.


Abaixo, a transcrição do referido bate-papo:

ATAIDE

E esse negócio do Gustavo, quando é que a gente pode fazer?

AIDAR

Ah, amanhã…

ATAIDE

Mas não é outro batom na cueca, porra?

AIDAR

Ele me paga honorários. Ele paga honorários para mim. Só isso, e eu repasso a você em dinheiro. Não é nem cheque, não tem rastro nenhum, nem para você, nem para mim.

ATAIDE

“Pô, Carlos Miguel, e eu não quero esse dinheiro também, não. O que eu não quero é que você vá mexer no  futebol. Vou te contar uma coisa que ninguém sabe… Caiu nas minhas mãos o acordo que a Cinira fez com a Under Armour. Ela recebeu um milhão e dez parcelas de R$ 500 mil, a última termina em julho de 2019. Eu não abro isso para ninguém, eu não vou falar para ninguém, mas eu quero que me deixe mexer no futebol, eu quero seriedade no futebol, eu não quero dinheiro de nada. Eu sou um duro, mas nunca fiz nada de errado. Eu fiquei triste quando você me ofereceu dinheiro, você achou que eu topava essas coisas. Eu não topo nada, não quero nada. E outra coisa.. Esse da Cinira, da mesma forma que eu tenho, qualquer dia alguém pega.

AIDAR

A Cinira tentou fazer um negócio com a Under Armour e não conseguiu. Ataíde, ela não tem contrato com a Under Armour.

ATAIDE

O cara falou que tinha.

AIDAR

Não tem contrato com a Under Armour.

ATAIDE

Então está bom, melhor para você.

AIDAR

Deixa eu falar uma coisa, quem tem contrato com a Under Armour é o tal do Jack, que é o Douglas [Schwartzmann, ex-vice de marketing].

ATAIDE

E como é que o Douglas faz reunião lá?

AIDAR

Não sei. Faz reunião onde?

ATAIDE

Na casa dele, para ir contra você.

AIDAR

A Cinira não tem nenhum contrato com a Under Armour.

ATAIDE

Mas chegou a quase fazer, né?

AIDAR

Isso é verdade. Ela negociou. Mas naquela época que o Douglas (…)

ATAIDE

Eu não quero nada.

AIDAR

O negócio da Under Armour estava perdido. Vieram uns caras para cá que falam inglês, nós fizemos uma reunião no meu escritório, almoçamos e desfizemos o negócio e eles foram embora. Não teve negócio nenhum, nenhum, nenhum. Depois eles voltaram via Jack. Agora, como é que o Jack voltou eu também não sei, Ataíde. Mas chegou, porque eu conheci o cara aqui.

ATAIDE

O Julio [Casares, ex-vice presidente] contou aquele dia para nós isso.

AIDAR

Eu estive com o cara, isso é verdade, o cara esteve comigo. Assinou o contrato. Agora, se tem rolo aqui, juro por Deus que não sei e também não quero saber.

ATAIDE

Agora, tem outra coisa. Sabe o negócio da hamburgueria aí, tem um negócio de hamburgueria? Fez contrato com o Palmeiras, fez contrato com o Corinthians, fez contrato com o Grêmio. E o advogado do Palmeiras falou que está fazendo contrato com o São Paulo, mas o que atrapalhava é que o Douglas pediu 15%…

AIDAR

O Douglas está pedindo comissão em tudo. Ele veio aqui e descaradamente…

ATAIDE

Por que você não acaba com isso, pô? Vamos acabar com isso, pô.

AIDAR

Ataíde, eu estou com o seguinte problema, bem. Se eu mandar o Douglas embora, vai o Dedé [Antonio Donizeti Gonçalves, ex-vice-presidente social] junto. Você não percebe que eu estou acuado? Completamente acuado? Eu estou a ponto de largar isso aqui a qualquer hora. Eu estou de saco cheio. Eu não preciso disso, se eu voltar para o escritório para mim é muito melhor.

ATAIDE

Eu estou tão nervoso com essas coisas todas, rapaz, mas tão nervoso… Esse negócio do Iago também foi uma merda, né?

AIDAR

Mas porra, o que você queria?

ATAIDE

E por que você fez essa confusão toda?

AIDAR

Por que, Ataíde? Você não queria o jogador? Queria ou não queria?

ATAIDE

Não queria assim. Para pagar, não. Ele vinha de graça.

AIDAR

O cara nunca veio de graça. Aí apareceu o porra lá na (…) Está aí a Cinira, pergunta para ela!

ATAIDE

Dois filhos da puta aqueles dois, o Walter e o Raul [nomes citados de supostos empresários que participaram da negociação de Iago Maidana – o nome mencionado como “Walter” está errado, segundo o próprio Gil Guerreiro]

AIDAR

No Juan Figer, o Raul trouxe a operação de crédito, dinheiro do exterior. Esse Raul eu conheci no centro de treinamento como se fosse amigo do Osorio.

ATAIDE

Você me contou.

AIDAR

Porra, eu não sei merda nenhuma (…) Aí o cara liga, precisava atender (…) O nego fala “Presidente, não é empréstimo não. É meu! Precisa fechar”. Então fecha. Espera um pouco, Oswaldo [Vieira de Abreu, ex-vice financeiro] está aqui? Dá para pagar? Então está bom, então fecha. Foi isso (…) Eu não sentei com o cara. Não sei a cara do cara.”

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