Telefone sem fio: a crise da narração

Da FOLHA

Por BECKY S. KORICH

  • O animal narrans cedeu lugar ao animal scrollans
  • Tempestade de informação não nos faz entender melhor o mundo

Telefone sem fio, é bom que se explique para os mais jovens, era uma brincadeira de criança em que, sentados lado a lado, o primeiro sussurrava uma frase no ouvido do amiguinho ao lado, que por sua vez repetia para o próximo, e assim ia passando por uma cadeia até chegar ao último. Havia um suspense para ver o que seria da frase original, que fatalmente viria distorcida. “A natureza é bela”, por exemplo, chegava em algo como “a professora é velha”.

Hoje a brincadeira continua, só que virou um jogo de adultos. A deformação da verdade deixou de ser um acidente e se tornou método: fatos importam menos do que a maneira como são contados. O jogo não é mais sobre o que aconteceu, mas sobre qual versão consegue se impor —e atiçar o desejo (ou a fúria).

No mercado de atenção, o que vale é o desempenho da história, não a fidelidade dos fatos. Diante disso, a mentira emotiva sempre terá vantagem sobre a verdade desinteressante.

A realidade é moldada por narrativas (termo esgarçado, mas aqui insubstituível). Aquilo que ontem soaria como delírio hoje é defendido com naturalidade por um número assustador de pessoas. Discursos extremos difundindo ódio na caça de votos, legitimação da tentativa de golpe, relativização de corrupções, racismo que ainda respira, antissemitismo com nova roupagem, teorias antivacinas de céticos da ciência mas fanáticos por outras crenças, negacionismo climático a serviço de interesses terrenos.

A Janela de Overton ajuda a explicar: descreve o processo de empurrar gradualmente ideias impensáveis para o terreno do “normal”. Quando isso desloca os limites do discurso público —e acontece com frequência—, o problema deixa de ser apenas semântico, torna-se estrutural, o que é preocupante para sociedades que se dizem livres e democráticas.

A tempestade de informação não nos faz entender melhor o mundo, faz o contrário. Conhecimento exige contexto, interpretação e organização. Milhares de dados são produzidos, compartilhados e esquecidos na mesma velocidade.

A epidemia da desinformação é exatamente isso. Não é erro de sistema, é o próprio sistema –e nós, o produto. Já não são sussurros nos ouvidos: são gritos. Grita a direita, grita a esquerda, grita o centro, gritam os influencers, gritam os militantes. Quando todos gritam ao mesmo tempo, ninguém escuta, perde-se a distensão psíquica para escutar de verdade e a curiosidade de entender o mundo com a cabeça destravada.

O animal narrans, que organizava o mundo por meio de histórias, cedeu lugar ao animal scrollans ou o phono sapiens, um ser que desliza o dedo na tela em busca de estímulo, indignação, causas para garantir o pertencimento à tribo. Byung-Chul Han fala disso em “A Crise da Narração” e chama atenção para a inversão: informação fragmenta, narração vincula.

Informação é pedaço solto: uma manchete, um post, uma conversa no elevador, um vídeo recortado, um print no grupo do WhatsApp. É miojo de história: três minutos, muita embalagem, pouco conteúdo e um tempero emocional de procedência duvidosa.

Se viver é narrar, se damos sentido à vida contando histórias sobre ela, e se a narração está em crise, é a vida que está em crise.

Pegamos o velho telefone sem fio, trocamos as crianças por adultos, o parque por redes sociais, o amigo pelo inimigo, e deixamos de achar graça quando “a natureza é bela” chega do outro lado como “a terra é plana”. E há quem compartilhe.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.