O autor do feminicídio de amanhã está sentado hoje na carteira da escola

Da FOLHA
Por NATALIA BEAUTY
- Violência não nasce sozinha, ela é ensinada e pode ser desaprendida
- A raiz do problema está dentro das casas que romantizam gritos, tapas e insultos
A violência nas escolas cresce enquanto o país tenta entender por que meninas são alvo preferencial dentro de um ambiente que deveria protegê-las. Esse aumento assusta, mas não surpreende quem, como eu, cresceu em um lar onde a violência era rotina. Durante anos, acreditei que amor tinha o mesmo rosto do medo, que grito era limite, que agressão era cuidado. É assim que muita gente cresce no Brasil, infelizmente, entendendo a violência como linguagem doméstica e levando esse vocabulário para a escola. Meninos reproduzem o que veem e meninas aprendem, cedo demais, a sobreviver ao que nunca deveria ser normal.
A escola sente esse impacto diariamente. O bullying se intensifica, o racismo se naturaliza e a violência física e emocional ocupa o lugar onde deveria existir convivência e aprendizado. As meninas sofrem mais e os dados provam essa exposição. Não é coincidência, mas é consequência de uma cultura que, há décadas, ensina que o corpo e o espaço feminino podem ser controlados, testados, violados. Quando esse imaginário atravessa o portão da escola, ele se expressa em empurrões, humilhações, apelidos, ameaças e agressões que se repetem até virar panorama.
A raiz do problema está dentro das casas que romantizam gritos, tapas, insultos, famílias que educam pelo medo e naturalizam a violência como resposta imediata para frustração. Cresci dentro desse modelo. Nasci e vivi em um ambiente disfuncional, hostil, onde a violência era rotina. Casei cedo porque achava que sair de casa seria solução, achava que amor era aquilo, que agressão era demonstração de afeto, que o mundo inteiro funcionava dentro da mesma lógica. Só quando cresci e furei a bolha percebi que aquilo não era normal, era anormal, era violência disfarçada de cotidiano.
É daí que nasce o perigo real, a normalização. Quando uma criança cresce assistindo a hostilidade, ela acredita que ela é regra. Quando um menino cresce vendo mulheres sendo silenciadas, humilhadas ou agredidas, ele não distingue abuso de convivência, e quando chega à escola, repete. Repete porque aprendeu que dominância é força, que impor medo é respeito, que menina aguenta, que menina cala, que menina aceita. E são essas crenças distorcidas que plantam, lá na infância, as sementes do que mais tarde chamaremos de feminicídio.
O ciclo não se rompe sozinho. A escola precisa ser agente ativo de transformação. Não basta reagir depois da agressão, depois da denúncia, depois do vídeo viralizar. A escola precisa ensinar desde cedo que respeito não é conceito abstrato, é prática diária. Precisa acolher quem sofre, orientar quem agride e intervir com firmeza quando a violência aparece nos primeiros sinais. Não se trata apenas de disciplina, mas de formação humana. Professores precisam de suporte institucional, pais precisam de orientação, alunos precisam de referências que mostrem que convivência não se resolve na base da força.
A família também carrega responsabilidade direta, mas nem toda criança tem casa estruturada, nem toda criança vive em ambiente saudável e milhares crescem em lares que ensinam o oposto do que deveria ser ensinado. Quando isso acontece, a escola se torna a única intervenção possível. É o único espaço onde esses meninos podem aprender que existe outro caminho, onde meninas podem ser vistas, ouvidas e protegidas. É o único ambiente capaz de frear, ainda na infância, a construção de homens que vão reproduzir violências na vida adulta.
O futuro depende dessa intervenção imediata. As crianças de hoje serão os adultos responsáveis pelo país que teremos nos próximos anos. Se não interrompermos esse padrão agora, continuaremos enterrando mulheres e lamentando estatísticas. O feminicídio não começa no dia do crime, ele começa na infância, no recreio, no grupo do WhatsApp, no empurrão que passa impune, no insulto que chamam de brincadeira, na omissão de quem viu e não agiu.
Precisamos garantir que essa geração cresça sem carregar ódio de gênero. Que meninos sejam educados para respeitar meninas, e meninas cresçam sabendo que respeito é direito, não concessão. A escola precisa ser o espaço que corrige o que a casa não dá conta. A formação da personalidade acontece agora, e qualquer silêncio, qualquer atraso, qualquer descuido pode custar vidas no futuro.
As crianças que hoje brincam no pátio serão os homens e mulheres que decidirão o que é tolerável na sociedade que estamos construindo. A violência não nasce sozinha, ela é ensinada e pode ser desaprendida se tratarmos essa urgência com a responsabilidade que ela exige.
