Uma democracia a menos na África

Da FOLHA

EDITORIAL

  • Um dos países mais pobres do mundo, Guiné-Bissau sofre 5º golpe militar desde a independência de Portugal
  • A rigor, os cidadãos da Guiné-Bissau já estavam submetidos ao viés autoritário da gestão civil do general reformado Umaro Embaló

Na véspera da divulgação dos resultados oficiais das eleições presidencial e legislativa da Guiné-Bissau, as Forças Armadas tomaram de assalto a sede do governo e derrubaram o líder Umaro Sissoco Embaló, candidato à reeleição.

Desde a última quarta-feira (26), o país lusófono da África Ocidental soma-se a outros sete vitimados por golpes de Estado entre 2020 e 2024 e a mais seis hoje sob jugo militar no continente.

A rigor, os cidadãos da Guiné-Bissau já estavam submetidos ao viés autoritário da gestão civil de Embaló, um general reformado. Tal inclinação foi explicitada em suas decisões de dissolver o Parlamento nacional em dezembro de 2023, percebida no país como meio de silenciar a oposição, e de adiar as eleições marcadas para o fim do ano passado.

Dessas e outras arbitrariedades, o agora ex-presidente colheu a extensão de seu mandato por nove meses e, em tese ao menos, um cenário mais favorável para superar nas urnas seu opositor Fernando Dias e se manter no poder por mais cinco anos.

O rumo a ser tomado pelo general Horta N’Tam, chefe do Estado-Maior do Exército empossado como presidente interino, mostra-se indefinido. Abortar o processo eleitoral em curso e derrubar com força militar um governo eleito e civil, porém, em nada sugere uma guinada democrática em futuro próximo.

Tampouco há ilusões sobre a capacidade de um governo de exceção de atrair investimentos e dar rumos econômicos promissores a um dos países mais pobres e institucionalmente frágeis do mundo. Pesa ali, acima de tudo, a condição de entreposto dos cartéis latino-americanos no escoamento de cocaína para a Europa e a designação como narcoestado pelas Nações Unidas.

São cerca de 2 milhões de habitantes e uma renda per capita de apenas US$ 2.800 —um sétimo da brasileira— calculados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) a partir da paridade do poder de compra das moedas. No ranking global de desenvolvimento humano da ONU, a Guiné-Bissau ocupa a 174ª colocação entre 193 países.

Pobreza e rupturas violentas ali se associam tragicamente. Este foi o quinto golpe militar —além de outras 18 tentativas— levado a cabo desde a independência de Portugal, em 1974.

Há que ser deplorado também o descuido das potências ocidentais com o continente, abandonado nas últimas décadas à influência de nações sem apreço ao Estado democrático de Direito e adeptos da solução das mazelas locais pela via autoritária.

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