Trump encabresta os argentinos

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Presidente americano condiciona ajuda financeira a uma vitória de Milei nas eleições
Às vésperas de eleições legislativas que determinarão o curso do que resta de seu mandato, o presidente da Argentina, Javier Milei, reuniu-se em Washington com o seu aliado Donald Trump. Na Casa Branca, como se fosse um coronel da República Velha brasileira, o republicano condicionou a manutenção do apoio financeiro dos EUA à Argentina ao desempenho de Milei e de seu diminuto partido, A Liberdade Avança, nas eleições de 26 de outubro. É a versão trumpiana do “voto de cabresto”.
“Se ele não ganhar, não vamos perder nosso tempo”, afirmou o presidente dos EUA. “Nossos acordos estão sujeitos a quem vencer a eleição. Porque, com um socialista, fazer investimentos é muito diferente.”
Os acordos a que Trump se refere são uma linha de swap cambial (troca de moedas) de US$ 20 bilhões que os EUA ofereceram à Argentina, bem como intervenções do Tesouro dos EUA no mercado de câmbio argentino.
Embora haja consenso entre economistas de que o peso argentino está caro, e que uma desvalorização é urgente para que o país volte a acumular reservas em dólares, a gestão de Milei vem queimando as combalidas reservas do país para manter o câmbio abaixo do teto de flutuação de 1,467 pesos por dólar.
Nesse contexto, a ameaça de Trump à Argentina é um despropósito por pelo menos duas razões. A primeira é que obviamente se trata de uma tentativa de interferência eleitoral em um país soberano. Os “socialistas” a quem o republicano se refere são os kirchneristas que, como se sabe, tanto dano fizeram à economia da Argentina. Mas são eles, os argentinos, que devem escolher quem os governa, tal como os americanos, que decidiram dar a Trump dois mandatos presidenciais.
A segunda razão é que Trump está canalizando recursos dos contribuintes dos EUA para apoiar uma política cambial que economistas e investidores entendem como insustentável.
Supostamente, a exótica ajuda de Trump à Argentina é uma tentativa de reduzir a influência da China na América Latina. Em tese, Milei, que vociferou contra Pequim e o comunismo em diversas ocasiões, está de acordo.
Na prática, porém, prescindir da China não é uma opção viável para a Argentina. Há meses sem comprar um grão de soja que seja dos EUA, o país asiático aproveitou-se de uma suspensão de impostos de exportação decretada por Milei para comprar toneladas de soja argentina a preços camaradas.
Enquanto isso, produtores dos EUA amargam prejuízos. Apoiadores de Trump, eles esperam por um socorro e agora se sentem traídos pelo republicano, que em vez de colocar a América em primeiro lugar teria feito da Argentina sua prioridade.
Agora resta saber se o partido de Milei realmente ampliará o número de cadeiras no Congresso argentino. Por mais que Trump tenha garantido que não gosta dos peronistas, e que Milei está fazendo a Argentina grande de novo, se há algo que o republicano realmente não tolera são perdedores.
Com popularidade em baixa, Milei precisa desesperadamente de um resultado minimamente satisfatório nas eleições para ter apoio para suas reformas e, ao mesmo tempo, garantir que Trump continue a lhe dar o respaldo necessário para a Argentina não afundar de novo.
