Corinthians e o homem sem ‘responsabilidade objetiva, direta e individualizada’

Bom de conversa, quase sempre cortês em suas manifestações, Vinicius Cascone costuma recorrer a termos jurídicos para escapar de responsabilidades em assuntos espinhosos.

Quando Augusto Melo, seu amigo desde os tempos do esquema Barbarense – cliente no processo que culminou em condenação a dois anos de prisão por sonegação de impostos, foi apanhado com a “boca na botija” da Vai de Bet, ele saía-se com comentários do tipo: “in dubio pro réu”, “não houve indiciamento”, “indiciamento não é condenação”, e por aí vai.

Todas afirmações verdadeiras — mas que, convenhamos, também servem para ocultar realidades inconvenientes.

Cascone, por óbvio, deve saber o que Augusto Melo fez no verão passado, no retrasado e nas décadas anteriores também.

Ao que tudo indica, fazia vista grossa.

Dezenas de áudios divulgados antes das eleições — alguns explícitos, citando-o (Vini) como “consultor” do acordo de Santa Bárbara — não bastaram para que retirasse o apoio, tampouco para recusar cargos relevantes na afamada gestão bandida.

Uma coisa é ser advogado de marginal, que é trabalho lícito, imprescindível para que garantias constitucionais sejam preservadas, outras é compor, por opção, o mesmo grupo político de quem sabia tratar-se de delinquente.

Ou não sabia?

O rompimento se deu, tudo indica, apenas por instinto de sobrevivência política no Corinthians — e somente após a “morte”, via impeachment, de Augusto Melo.

Esperteza que deixa rastros a quem possui o mínimo de neurônios.

Agora, aliado a novos parceiros — alguns do velho Centrão — Cascone concede entrevistas na condição de “surpreendido”, defendendo-se, como de hábito, em esperto juridiquês.

Ao Meu Timão, quando questionado sobre as investigações internas da gestão Augusto Melo, saiu-se com esta:

“Não vejo problema algum [em apurações internas]. Desde que se identifique a responsabilidade objetiva, direta e individualizada de cada diretor, e qual foi o fator que isso causou, não vejo nada de errado.”

A apuração da “responsabilidade objetiva, direta e individualizada de cada diretor” é ótimo argumento de defesa num tribunal criminal — mas não funciona politicamente, nem livra ninguém de responsabilidades por comportamentos imorais, ainda que não necessariamente delituosos, que possam ter prejudicado o Corinthians.

Enquanto diversos problemas se desenrolavam — como o da Vai de Bet, as contratações de jogadores e as confissões de dívidas — Cascone era parte do triunvirato do poder, o que torna improvável que ignorasse ao menos alguns desses fatos.

Em vários deles, inclusive, assinou como diretor jurídico.

Se, criminalmente, não infringiu regras, moralmente tropeça desde os tempos em que participava dos “trens da alegria” do grupo de Augusto Melo, quando ainda estavam nas categorias de base do clube — integrantes, à época, da Renovação e Transparência.

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