A ressaca após julgamento histórico

Da FOLHA

Por VERA IACONELLI

Visões tão desconexas parecem dizer respeito a mundos distintos

Há menos de uma semana de um acontecimento que marcou a história do Brasil, seguimos perplexos. A ressaca é coletiva, embora por razões distintas. De um lado estão aqueles que acordam se sentindo num país melhor. De outro, há os que acham que isso aqui virou uma ditadura, que Alexandre de Moraes é o demônio e Trump, nosso salvador. Visões tão desconexas parecem dizer respeito a mundos distintos, embora emerjam do mesmo país.

Bolsonaristas reclamam da condenação de seu líder, mas esquecem convenientemente que o julgamento previsto no regime que tentaram implementar simplesmente não existe e, segundo Bolsonaro, matou pouco. Os que se sentem aliviados com o desfecho do julgamento, por sua vez, convivem com a agonia de saber que a extrema direita que prega golpes de Estado não acaba junto com ele. Seus arautos seguem firmes em busca de outro messias, pois nesse bueiro o que não falta é lixo.

Na excelente entrevista que Marcos Nobre deu a Natuza Nery no podcast “O Assunto”, o filósofo e pesquisador diz que não vivemos uma polarização, pois essa implicaria o compartilhamento de um mesmo campo. Vivemos uma divisão, na qual a própria definição de fato está em disputa. Julgar e condenar a partir de provas é chamado de autoritarismo, defender a ditadura é tido como liberdade de expressão.

O embaralhamento dos termos ditadura, democracia, legalidade, arbitrariedade e liberdade é a grande arma política. O ataque à coerência discursiva perpetrado pela extrema direita se vale das redes virtuais, nas quais surfa com desenvoltura, para manipular paixões e incitar a paranoia.

Nobre fala também de uma parte da direita que não se assume golpista, mas que o seria sem medo —no caso, sem medo de perder a democracia. Uma direita oportunista que está sempre pronta a abraçar o capeta, achando que poderá continuar a enganá-lo mesmo quando as instituições democráticas não estiverem mais operando.

Mas a dicotomia não está associada apenas ao jogo sórdido de grupos políticos por poder, mas à própria disputa pelo que entendemos por sociedade. O discurso populista perdeu qualquer resquício de pudor, glamourizando o cinismo, como vemos na identificação coletiva com a personagem Odete Roitman. O único traço imperdoável dela aos olhos do público é sua rejeição ao filho acidentado. Corrupta e maquiavélica, ok, mas péssima mãe, jamais.

Já o discurso do pobre de direita visa a miragem meritocrática, identificando-se não só com a promessa de mobilidade social, desejo de todos os que são constrangidos pela pobreza, mas também com o gozo de ocupar o lugar de opressor dos demais.

Como na psicanálise, a saída proposta por Nobre se dá pela horizontalidade das relações, sem idolatrias. Uma frente amplíssima, que tem como limite a inegociabilidade da democracia. Isso implica a manutenção de um campo de aliança instável, no qual as diferenças chegam ao limite do insuportável, que é o preço a ser pago por qualquer regime democrático.


Em tempo: foi identificado, 50 anos depois, o corpo do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, morto por agentes da ditadura militar argentina. Sem investigação, sem acusação, sem mandado de prisão, sem julgamento, mas com condenação sumária de espancamento até a morte. Na linha do que é intransponível deve estar escrito em grandes letras: Nunca Mais.

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