‘Ele está sempre no ataque’: o juiz brasileiro que processa Bolsonaro inspira amor e ódio

Do THE GUARDIAN
Por TOM PHILLIPS
Alexandre de Moraes lidera o processo criminal contra o ex-presidente por supostamente arquitetar um golpe
O tatuador Bruno Ferreira tatuou inúmeros super-heróis e superestrelas em corpos brasileiros durante seus 25 anos de carreira: Mulher Maravilha, Batman, Ayrton Senna e Pelé.
Mas quando Adauto Gomes Nascimento entrou em seu estúdio no início deste ano, ele tinha uma personalidade diferente em mente: um juiz musculoso e de cabeça raspada chamado Alexandre de Moraes, que agora é uma das maiores e mais controversas celebridades do Brasil.
“Ele significa tudo para mim. Ele é alguém que defende o Brasil … Ele é uma boa pessoa e um bom juiz”, disse Nascimento, um açougueiro de 37 anos da cidade amazônica de Belém, explicando por que gastou seis horas e R$ 3.000 para imortalizar o rosto de Moraes em sua canela.
Se tatuar o rosto de um juiz do Supremo Tribunal Federal na perna parece uma decisão peculiar, o cenário político excepcional do Brasil ajuda a explicar a escolha de Nascimento.
Moraes é o juiz que preside o julgamento histórico de Jair Bolsonaro, que começou na capital Brasília na semana passada. E a busca de Moraes para responsabilizar o ex-presidente do Brasil por supostamente arquitetar um golpe depois que ele perdeu a eleição de 2022 para seu arquirrival, Luiz Inácio Lula da Silva, fez do combativo magistrado lutador de muay thai um herói – e até mesmo um símbolo sexual – para os progressistas e uma figura odiada pelos devotos de Bolsonaro.
Até Elon Musk, um dos fãs estrangeiros mais famosos de Bolsonaro, chamou o jurista de 56 anos de “um ditador malvado fazendo cosplay de juiz” e “Darth Vader do Brasil”, e o comparou ao vilão de Harry Potter, Lord Voldemort.
“Ele intriga e fascina seus detratores e seus admiradores em igual medida”, disse a jornalista Thais Bilenky, que fez um podcast de seis partes sobre Moraes chamado Alexandre. “Eu não acho que haja alguém que inspire tanto amor e tanto ódio, tanto medo e tanta admiração, como ele.”
O caminho de Moraes para se tornar uma das figuras mais influentes e controversas do Brasil começa em São Paulo em 1986 – um ano após a restauração da democracia após duas décadas de regime militar. Foi quando um adolescente Moraes se matriculou na melhor faculdade de direito do Brasil – uma instituição de elite que educou um terço dos 39 presidentes do país – e deu seus primeiros passos para se tornar um nome familiar conhecido simplesmente como “Xandão”, ou “Big Al”.
Hoje, muitos brasileiros de esquerda saúdam Moraes como o salvador da quinta maior democracia do mundo. Mas durante seus dias de universidade, Moraes era um homem de direita. “A última coisa que ele teria em seu quarto era um pôster do Che!”, disse seu amigo Floriano de Azevedo Marques Neto ao jornal francês Le Monde em 2023.
Depois de se formar, Moraes construiu uma reputação de workaholic prático – e um currículo invejável. Ele ficou em primeiro lugar no vestibular para se tornar promotor público e, aos 20 e poucos anos, provou sua coragem ao enfrentar um dos políticos mais poderosos do Brasil, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, durante uma investigação de corrupção chamada “Chickengate”. Moraes também encontrou tempo para escrever um livro de 1.000 páginas sobre direito constitucional que vendeu centenas de milhares de cópias.
Em 2002, aos 33 anos, Moraes entrou na política, tornando-se o secretário de Justiça mais jovem da história de São Paulo. Entre suas missões estava limpar as instituições de jovens infratores dominadas por abusos do estado. Eloísa Machado, professora de direito que então trabalhava como advogada de direitos humanos defendendo adolescentes encarcerados, relembrou seu primeiro encontro com Moraes, no início de 2005. Depois de denunciar a tortura em um centro de detenção, Moraes foi pessoalmente e ordenou a prisão de mais de 20 funcionários. “Foi a primeira vez [no Brasil] que alguém foi preso no local por torturar adolescentes”, disse Machado, acrescentando: “Ele sempre teve esse perfil combativo”.
Em 2015, a fama de Moraes estava se espalhando. Ele se tornou secretário de segurança pública de São Paulo – um cargo que lhe deu controle sobre o policiamento na maior cidade e estado mais populoso do Brasil – e foi vilipendiado por esquerdistas pelo que consideraram sua resposta autoritária aos protestos contra o impeachment da presidente de esquerda do Brasil, Dilma Rousseff. Em uma ocasião, Moraes comparou manifestantes de esquerda a guerrilheiros.
Os políticos da oposição ficaram horrorizados quando o sucessor de Dilma, o conservador Michel Temer, convidou Moraes para ser seu ministro da Justiça em 2016 e, um ano depois, nomeou o homem de 48 anos como o membro mais jovem da Suprema Corte. Gleisi Hoffmann, uma aliada próxima de Lula, chamou Moraes de ameaça à democracia.
Mas esse sangue ruim logo foi esquecido. Depois que Bolsonaro assumiu o poder em janeiro de 2019, Moraes rapidamente se tornou um dos oponentes mais enérgicos e eficazes dos desígnios autoritários do político de extrema-direita.
Ele conduziu uma série de investigações da Suprema Corte sobre o presidente e seus aliados; bloqueou contas de mídia social pertencentes a ativistas de extrema direita; e ordenou batidas policiais controversas contra ricos apoiadores de Bolsonaro suspeitos de discutir um golpe.
Às vésperas da eleição de 2022 – amplamente vista como uma das mais importantes da história brasileira – Moraes tornou-se presidente do tribunal responsável pela organização das eleições e foi amplamente creditado por tomar medidas decisivas para manter a votação nos trilhos, apesar da suposta tentativa de Bolsonaro de roubá-la.
No dia do segundo turno crucial da eleição, Moraes ajudou a frustrar uma suposta tentativa de usar a polícia rodoviária para obstruir os eleitores de Lula, ameaçando prender seu comandante. Quando os apoiadores de Bolsonaro se revoltaram em 8 de janeiro de 2023, após a posse de Lula, o juiz suspendeu o governador de Brasília enquanto as autoridades federais lutavam para recuperar o controle.
“O Brasil deve muito a ele”, disse recentemente o juiz do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes sobre Moraes, refletindo a visão amplamente difundida de que seu colega foi fundamental na proteção da democracia.
Os bolsonaristas radicais discordam – e até mesmo alguns progressistas temem que Moraes possa ter ultrapassado sua autoridade constitucional em sua cruzada para proteger a democracia. Um amplo inquérito da Suprema Corte sobre notícias falsas – criado em 2019 para combater uma explosão de desinformação de extrema direita – está em andamento há seis anos e ainda não está claro quando a investigação pode ser concluída, ou precisamente quem foi o alvo e por quê.
Nos protestos, os bolsonaristas empunham cartazes alegando que seu país se tornou “uma ditadura judicial” e lançam insultos e obscenidades contra Moraes. “Ele é o filho incircunciso de Belial!”, disse um manifestante pró-Bolsonaro, Francisco Antônio, em um comício recente na capital.
Sebastião Coelho, um juiz bolsonarista aposentado, acusou Moraes de atropelar a constituição e exigiu seu impeachment: “Alexandre de Moraes não é um juiz … Ele é um criminoso que está devastando nosso país.”
Autoridades do governo de Donald Trump ecoaram essa retórica, acusando Moraes e seus colegas juízes de liderar uma “caça às bruxas” contra o aliado sul-americano do presidente dos EUA. Em julho, Moraes foi sancionado pelo Tesouro dos EUA por supostamente liderar “uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam os direitos humanos e processos politizados – inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro”.
Aqueles que acompanharam a carreira de Moraes duvidam que tal pressão o faça ceder ao julgamento de Bolsonaro, que deve terminar em 12 de setembro, com uma condenação e uma sentença pesada consideradas prováveis.
“Ele é uma pessoa poderosa que não tem medo – ele está sempre no ataque”, disse Nascimento, o açougueiro da Amazônia, sobre o homem tatuado em seu membro. “Eu gosto disso nele também. Ele realmente vai em frente … Ele resolve as coisas.”
