A democracia israelense à beira do abismo

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Avolumam-se indícios da preparação de uma limpeza étnica de palestinos. Mas ‘sepultar a ideia de um Estado palestino’, como disse um ministro, equivale a sepultar a democracia israelense

Quando o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, promete expandir assentamentos na Cisjordânia para “sepultar a ideia de um Estado palestino”, não está apenas insultando o Direito Internacional ao qual Israel deve sua existência. Está confessando um projeto que enterrará também a própria democracia israelense. A ocupação permanente de territórios palestinos é incompatível com a condição de Estado democrático que Israel reivindica.

Os sinais se acumulam. A exumação de planos como o E1, que racha a Cisjordânia ao meio, o avanço de assentamentos em ritmo recorde e a reocupação militar de Gaza não são peças isoladas: compõem um mosaico coerente, voltado a arruinar qualquer solução de dois Estados. O redesenho físico e demográfico dos territórios palestinos, reforçado por “zonas-tampão” e corredores militares, traduz no terreno o que as alas extremistas do governo pregam abertamente: a substituição de populações palestinas por colonos israelenses e o controle total “do rio ao mar”.

As palavras de altos dirigentes dão corpo às evidências. Fala-se em “realocar voluntariamente” 2 milhões de habitantes de Gaza, enquanto se negocia sub-repticiamente com países distantes para absorver refugiados. Na prática, essa realocação “voluntária” é ficção: qualquer deslocamento, sob o trauma de bombardeios e da fome, sem garantias de retorno, configura expulsão forçada. A demolição em massa de casas, a destruição sistemática de infraestrutura civil e a criação de enclaves palestinos isolados sob vigilância permanente são parte do mesmo padrão. Ao ignorar o Direito Internacional, Israel se arrisca não só a sanções, mas a um isolamento profundo. O paralelo com a expulsão, entre as décadas de 1940 e 1970, de quase 1 milhão de judeus de países árabes é sinistro – e deveria bastar para dissuadir qualquer governo de repetir, contra outros, um trauma que marcou seu próprio povo.

A Corte Internacional de Justiça e governos e organismos internacionais reconhecem que a colonização e o deslocamento compulsório violam as Convenções de Genebra. Não por acaso, cresce a lista de países que cogitam reconhecer o Estado palestino ou restringem visitas de autoridades israelenses. A erosão do apoio internacional não é retórica: é um vetor estratégico que ameaça a segurança, a economia e a capacidade diplomática israelenses. A transformação de Israel em um Estado pária deixaria cicatrizes profundas, corroendo as relações com parceiros que hoje sustentam sua segurança.

As consequências para os palestinos são óbvias e trágicas: mais mortes, mais deslocamentos, mais perda de meios de subsistência, mais uma geração condenada ao trauma e ao exílio. Mas os custos para Israel serão igualmente devastadores. Se se consolidar como potência ocupante permanente, Israel fechará as portas à normalização com vizinhos árabes, alimentará instabilidade regional e verá a cooperação em segurança e comércio ruir. A promessa de integração no Oriente Médio será substituída por uma espiral interminável de hostilidade e violência.

Um regime democrático exige não apenas eleições livres para seus cidadãos, mas o respeito às liberdades e à autodeterminação dos povos sob sua jurisdição, e um país que mantém milhões de pessoas sob domínio militar, sem direitos políticos, ou que expulsa populações inteiras por razões étnicas, deixa de ser uma democracia. Assim, a defesa da democracia israelense passa, necessariamente, pela desocupação dos territórios palestinos e pelo reconhecimento do direito palestino à soberania.

“Sepultar a ideia de um Estado palestino” equivale, portanto, a sepultar a ideia da democracia plena israelense. Entre um futuro de coexistência, com fronteiras reconhecidas e segurança mútua, e um de dominação perpétua, isolamento e paranoia, a escolha ainda é possível. Mas o tempo – assim como as terras e a esperança dos palestinos – está se esgotando rapidamente. Se os democratas israelenses quiserem salvar a alma de sua nação, terão de lutar com unhas e dentes não para expandir o seu controle sobre territórios alheios, mas para encerrar a sua ocupação.

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