Nunca discuta com um fanático: além de inútil, é perigoso

De O GLOBO

Por LEO AVERSA

Veja como “driblar” o fanático da política, que pode ser um desconhecido ou parente

São oito da noite e você está no supermercado, concentrado em questões transcendentais: Omo ou Ypê? Humm, o Ariel tá na promoção… Envolto nos grandes desafios da existência humana, você não se dá conta de quem vem pelo corredor. Quando percebe, já é tarde.

Na sua frente, espumando de ódio, está o fanático da política.

Ele vive indignado. Indignado não; transtornado. “Xandão isso, Xandão aquilo, Trump não sei o quê”. Passa o dia inteiro no zap, recebendo e repassando vídeos toscos e textões primários sobre supostos absurdos que só serão corrigidos quando todo mundo pensar e agir como ele. E tome teorias conspiratórias, delírios políticos, tramas sem sentido. O sujeito não lê jornal, não vê televisão, sequer liga o rádio. É apenas um celular na mão e uma usina de fake news na cabeça.

Só podia dar ruim. E dá.

Bastaria um bom psiquiatra, mas esses fanáticos estão se multiplicando feito gremlins. Saber se livrar deles é uma necessidade básica, que deveria entrar na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O mais prático é sair correndo, mas às vezes o fanático é um parente, um vizinho ou o pai de um colega do seu filho. Aí não dá para fugir, é preciso encarar o bruto e partir para o drible.

A coluna de hoje é um serviço de utilidade pública: como escapar desses perturbados.

A primeira dica é: nunca, jamais, sob hipótese alguma discuta com um fanático. Além de inútil, é perigoso.

Qualquer palavra pode ser mal interpretada. Lembre que eles têm sérios problemas cognitivos. Fale o mínimo possível.

Não diga nada que, ainda que remotamente, possa ser tomado como “política”. Tal como no ditado “para quem só tem martelo, tudo é prego”, ele vai tentar levar qualquer assunto para a sua especialidade, que é o sangue no olho e o dedo em riste. Se você falar que o Omo, o Ypê e o Ariel estão caros, ele vai retrucar — furioso — que é por conta do tarifaço do Trump. O melhor é ficar só nas amenidades. Mesmo assim, cuidado: não comente a mudança do tempo. Ele pode achar que você está reclamando do aquecimento global e aí, pronto, serão horas vociferando contra a ciência.

Faça apenas uma expressão preocupada e balance lentamente a cabeça, soltando um arrã de vez em quando. Não importa o que você ouça, é arrã e nada mais. Ele pode defender o fim das vacinas, a Terra plana, o golpe de Estado, a excomunhão do Pix, a beatificação do Trump. Não importa: apenas arrã. Qualquer tentativa de argumentação vai terminar com o perturbado colando em você feito Superbonder. Lembre: o problema não é a política, são os fanáticos.

Eles estão por toda parte: no corredor do supermercado, no clube, na reunião de condomínio, no grupo de zap dos pais. Ao menor descuido, partem pra cima com seus perdigotos selvagens e sua ideologia sem pé nem cabeça. Tanto faz se você é de esquerda, direita ou centro: basta discordar uma vírgula que você já vira inimigo mortal. Melhor se fingir de morto.

Se nada mais funcionar, parta para a solução definitiva, tipo bala de prata: jogue um livro nele. Grosso, de preferência. Talheres também servem. Fica um certo climão, mas posso garantir que ele vai fugir como o diabo da cruz. Se tem algo que espanta qualquer fanático é educação e cultura.

Àquele corredor ele não volta mais. Omo, Ypê ou Ariel?

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