Valhacouto de delinquentes

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Expulsão de deputado que ousou defender o Brasil contra Trump mostra no que o PL se tornou

O PL de Valdemar Costa Neto decidiu expulsar de seus quadros o deputado federal Antonio Carlos Rodrigues (SP), conhecido como ACR. Isso porque o parlamentar paulista ousou não prestar vassalagem a Jair Bolsonaro e disse uma obviedade: a sanção imposta pelo governo dos Estados Unidos, com base na Lei Magnitsky, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes é “o maior absurdo”.

O notório capo do PL alegou que a pressão de sua grei no Congresso “foi muito grande” para que ele expulsasse sumariamente um correligionário de longa data, um filiado ao que eles chamam de “PL raiz”. Sem disfarçar a genuflexão aos pés de Donald Trump, Valdemar afirmou que “atacar o presidente dos Estados Unidos é uma ignorância sem tamanho”, comprovando, como se precisasse, que o PL deixou de ser um partido político digno do nome para servir como agente do que este jornal designou como a “Internacional Golpista” liderada por Trump. Um vexame.

O caso do PL é pitoresco. Muito provavelmente, está-se diante de um sequestro no qual é a suposta vítima quem recebe um vultoso resgate. O que um dia já foi um partido político que, a despeito de seus problemas, jogava o jogo democrático, deixou-se capturar por Bolsonaro e seus asseclas em troca de dinheiro, muito dinheiro – mais especificamente, os bilionários Fundos Partidário e Eleitoral. O PL nunca foi tão rico até escancarar suas portas para delinquentes que usam a legenda para atacar as instituições republicanas e emporcalhar a política nacional.

O sr. Valdemar e seus peões no partido – o qual seguimos designando dessa forma por mera convenção, e não por merecimento – são tão hipócritas que as justificativas para a expulsão de ACR seriam só risíveis caso não fossem tão ofensivas à inteligência alheia. Com a maior caradura, o cacique escreveu, pasme o leitor, que o que o Brasil precisa “é de diplomacia e de diálogo, não de populismo barato, que só atrapalha o desenvolvimento da nossa nação”. Esse discurso é tudo o que o bolsonarismo jamais praticou e nem sequer representa como ideia.

Às raias da pilhéria, é curioso notar que o mesmo partido político que apregoa dia sim e outro também seu suposto compromisso com as liberdades democráticas, em particular a liberdade de expressão, expulsa um parlamentar em pleno exercício do mandato que nada mais fez, ora vejam, do que exercer o seu direito constitucional de dizer o que pensa, sem cometer crime algum.

Com didática eloquência, esse episódio eviscera o ethos do bolsonarismo: não há espaço para o dissenso, não se tolera o pensamento independente e quem tiver a audácia de ser ponderado será punido. Ou se se dobra ao líder – seja ele Valdemar, Bolsonaro ou Trump – ou se está fora. É o culto à obediência cega, tão próprio dos mesmos regimes populistas de viés autoritário que o sr. Valdemar condena em sua nota sem-vergonha.

A democracia representativa requer e o Brasil carece de partidos políticos que defendam princípios e caminhos para o desenvolvimento do País, e não de legendas de aluguel a serviço de projetos personalistas e destrutivos, quando não um valhacouto de delinquentes.

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