Ingrediente nuclear

Da FOLHA

Por HÉLIO SCHWARTSMAN

Conhecimento acumulado é valor fácil de transportar e que não pode ser destruído por bombas

Enquanto serviços de inteligência se esforçavam para avaliar os danos que os ataques de Israel e EUA impuseram ao programa nuclear iraniano, o chanceler persa, Abbas Araghchi, ponderava que o conhecimento científico já acumulado pelos técnicos do país não pode ser destruído por bombas.

A observação do ministro é correta e não deveria surpreender Israel. Durante séculos, a estratégia de sobrevivência dos judeus numa Europa profundamente antissemita foi acumular conhecimento. É a riqueza mais fácil de transportar —cada indivíduo a carrega em sua cabeça— e mais difícil de roubar —para subtraí-la, é preciso tirar a vida do portador.

A busca por conhecimento mudou de patamar depois que, nos séculos 18 e 19, judeus da Europa Ocidental tiveram reconhecido o direito de frequentar universidades. A partir daí, eles foram conquistando espaços na academia.

Um bom exemplo de seu sucesso é justamente a bomba atômica americana. Dois dos três cientistas que convenceram Roosevelt a deslanchar seu programa nuclear eram judeus (Einstein e Szilard). O terceiro, Fermi, não era, mas se casara com uma, e a família deixou a Itália por causa do antissemitismo.

No Projeto Manhattan propriamente dito, também era alta a participação de judeus. O programa era liderado por um, Robert Oppenheimer, assim como eram judeus 18 dos 86 cientistas da divisão de física teórica. Isso dá 21%. A população judaica dos EUA naqueles anos era da ordem de 0,05%. E os melhores desses físicos eram europeus que haviam praticamente sido expulsos do continente por Hitler e sua campanha contra a “física judaica”. Num universo alternativo, em que o nazismo não tivesse como marca o antissemitismo, a Alemanha talvez tivesse conservado seus físicos, vencido a corrida pela bomba e ganhado a guerra.

Curiosamente, Trump, com sua campanha contra as universidades, que afasta dos EUA muitos talentos científicos, reencena o que talvez tenha sido um dos maiores erros de Hitler.

Com conhecimento não se brinca.

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