O Brasil é o país mais miscigenado do mundo?

Da FOLHA
Por LYGIA DA VEIGA PEREIRA
2.723 genomas brasileiros estudados revelam, ao menos, que somos a maior população com mistura de povos do planeta; e isso tem um valor imenso
O estudo do genoma humano vem revolucionando a medicina, levando à melhor compreensão das causas fundamentais de doenças como câncer e Alzheimer. Isso possibilita o desenvolvimento de diagnósticos preditivos e terapias mais eficazes. Afinal, nosso DNA é uma grande receita que a natureza segue para a formação e funcionamento do ser humano.
É seguindo as instruções dessa receita —os genes— que aquela única célula que um dia fomos se transforma nos trilhões que compõem nosso corpo. E essas células sabem o que fazer para garantir nosso correto funcionamento.
Pequenas variações na sequência do DNA de cada um de nós explicam nossas características individuais: aparência, saúde e como respondemos a medicamentos. Ao entender quais variações geram quais características, compreendemos melhor a biologia humana e usamos esse conhecimento para desenvolver uma medicina mais eficaz. Mas, para isso, precisamos conhecer o genoma e a saúde de milhões de pessoas.
E nós conhecemos. Há anos, países como Islândia, Reino Unido, Finlândia, Estônia e Estados Unidos investem em plataformas com dados genômicos de centenas de milhares de indivíduos. Isso levou ao surgimento da medicina de precisão —que usa o DNA para melhorar a prevenção e o tratamento de doenças como hipertensão, diabetes e câncer. Por exemplo: conhecendo variações genéticas que elevam o risco de câncer de mama, em vez de realizar mamografia em todas as mulheres a partir dos 40 anos, podemos recomendar o exame a partir dos 20 anos para quem tem predisposição genética e aos 60 para quem não tem. Ganhamos em eficiência e reduzimos custos no sistema de saúde.
Contudo, 80% dos dados genéticos disponíveis no mundo vêm de populações de ancestralidade europeia. Logo, a medicina de precisão é hoje precisa só para brancos. Diferenças genéticas entre populações fazem com que resultados válidos para populações brancas não sejam diretamente aplicáveis a outros grupos.
Sabemos que a população brasileira resulta de mais de 500 anos de miscigenação entre indígenas, africanos, europeus e outros grupos que se encontraram em “Terras Brasilis”. Assim, o Projeto DNA do Brasil, lançado em 2019 com apoio do Grupo Dasa e Google Cloud, e mais tarde encampado pelo Ministério da Saúde, nasceu com o objetivo de incluir o Brasil na medicina de precisão.
Os resultados da análise dos primeiros 2.723 genomas brasileiros revelaram as consequências biológicas da nossa história: uma fração menor de DNA indígena (resultado do extermínio), mistura de DNAs africanos de povos que não se encontram na África (sequestro de escravizados de várias regiões), e assimetria de ancestralidade paterna (predominantemente europeia) e materna (com maior fração indígena e africana). Essas mulheres se encantaram pelos homens europeus e passaram a rejeitar seus semelhantes, ou foram vítimas de violência desses colonizadores? Os livros de história sugerem a segunda hipótese.
Revelamos ainda quase 9 milhões de variações genéticas inéditas, mostrando a importância de estudar os genomas brasileiros para entender como essas variantes impactam nossa saúde. Com isso em mente, o Ministério da Saúde criou o Programa Genomas Brasil, que reúne pesquisadores de diversas instituições para criar uma plataforma com dados genômicos e de saúde de 100 mil brasileiros. Assim, ganharemos poder estatístico para aplicar a medicina de precisão no SUS.
Nossos resultados também apontam o valor que os genomas brasileiros têm para a inovação em saúde. Indústrias farmacêuticas e de biotecnologia usam esses dados para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos. Inspirada por esse potencial, fundei em 2022 a startup gen-t (leia-se “gente” —união de gene com tecnologia, mas antes de tudo uma empresa sobre a gente), que está construindo uma plataforma inédita de inovação baseada na diversidade genética do brasileiro.
O Brasil é o país mais miscigenado do mundo? Cientificamente, ainda não posso afirmar isso —teria que comparar com todas as populações mundiais. Mas os 2.723 genomas brasileiros estudados revelam que somos a maior população miscigenada do mundo. E isso tem um valor imenso. O Projeto DNA do Brasil, o Programa Genomas Brasil e agora a gen-t estão desvendando a biologia e a história por trás da maravilhosa diversidade do brasileiro, mostrando que ela é, sem dúvida, a nossa maior força.
