Trump usa crise na Califórnia para ataque institucional

Da FOLHA
EDITORIAL
Protestos violentos contra política anti-imigração criam oportunidade para republicano atropelar federalismo americano
O trumpismo, de certa forma uma mutação radicalizada de ideias condensadas por Richard Nixon há quase 60 anos, sempre lutou contra autonomias —de estados, universidades, do Judiciário. No mundo ideal de Donald Trump e seus seguidores mundo afora, a autoridade central deve ser soberana.
Isso ajuda a explicar a atração do presidente americano por autocratas, como se observa na guinada russófila dos EUA no conflito de Vladimir Putin contra a Ucrânia. Em casa, não é diferente.
Desde que voltou ao poder, o republicano empreende cruzadas contra o que percebe como obstáculo à sua visão de mundo, de juízes que barraram iniciativas do Executivo a até um ícone do progressismo que Nixon já combatia, a Universidade Harvard.
Em comum nessas duas campanhas há a rejeição ao assim chamado outro, encarnado hoje pelos trumpistas nos imigrantes.
Sejam miseráveis ilegais jogados em aviões para prisões em El Salvador ou alunos sofisticados que frequentam o Olimpo intelectual do país, tanto faz. Sob a lente distorcida de quem apoia o mandatário, são todos ameaças.
Nesse contexto, a mais nova crise no país criou uma oportunidade para a Casa Branca. Para começar, ela se desenrola na Califórnia, o estado mais rico do país e fortaleza tradicional do oposicionista Partido Democrata.
Lá, protestos contra a política anti-imigratória tornaram-se violentos, e a polícia interveio. Já o presidente atropelou o governador democrata Gavin Newsom, enviando a Guarda Nacional para enfrentar a situação.
O emprego das forças de reserva militares não é de todo inédito. Em 1992, George H.W. Bush enviou a guarda para ajudar a suprimir uma revolta causada pelo espancamento de um negro pela polícia —mas o fez em consonância com o governo local.
A última vez em que isso ocorreu de forma unilateral foi em 1965, para proteger ativistas de direitos civis. Ainda pior, alegando uma imaginária invasão de estrangeiros, Trump mobilizou fuzileiros navais da ativa.
A Califórnia foi à Justiça contra a iniciativa, que Newsom vê como forma fabricada de ampliar a revolta. Ato contínuo, o presidente defendeu que o governador fosse preso, escalando ainda mais a crise institucional.
Costuma-se dizer que há 50 Estados Unidos, em referência ao federalismo que marca a nação. Assim, o republicano volta a atacar um dos pilares de um edifício democrático fundado há dois séculos e meio, como de resto já havia tentado em seu primeiro mandato sem sucesso.
Ele conta com a percepção que Nixon teve em 1968, quando universidades se converteram em campos de batalha devido à Guerra do Vietnã —a de que a população não gosta de bagunça. Ao menos entre os trumpistas, a ideia tende a ter ressonância.
Trump reforça seu descompromisso com a institucionalidade e, a depender do curso do imbróglio, abre perigoso precedente.

R.I.P. U.S.A.