Trump avança na cruzada contra a ciência

Da FOLHA
EDITORIAL
Presidente impõe medidas descabidas para universidades, mas Estado não deveria atuar em questões de disciplina interna
É típico de líderes populistas com pendores autoritários criar inimigos imaginários para travar batalhas simbólicas. Assim, energizam a base de apoiadores, reforçam sua narrativa ideológica e desviam a atenção dos problemas reais.
Donald Trump transformou as universidades de elite em inimigas. Harvard, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos, é o alvo principal. A instituição reagiu aos seus desmandos e tornou-se objeto preferencial de sua sanha.
Trump determinou o encerramento de programas de pesquisa e de contratos entre o governo e a instituição que rondam bilhões de dólares; colocou alunos e professores sob a mira de investigadores por associação com terrorismo; mais importante, revogou o direito de Harvard de trazer estrangeiros, que representam quase 30% de seu corpo discente.
Esta última medida, que afetaria até aqueles que já estão matriculados, foi suspensa provisoriamente pela Justiça.
Com seu estilo hiperbólico, Trump acusa universidades de serem templos do identitarismo, que espumam antissemitismo e atacam membros da comunidade acadêmica com perfil um pouco mais conservador.
Para manter as verbas, as instituições devem mudar currículos e rever a políticas de admissão de docentes e alunos, além de reprimir atos pró-Palestina.
De fato, as universidades não vinham sendo muito consistentes na aplicação da disciplina interna. Sob inspiração do movimento identitário, eram ágeis em punir professores e alunos que não rezassem pela cartilha progressista atual, mas exibiam tolerância máxima para com discursos contra judeus e Israel.
Contudo cabe às instituições resolver o problema, sem ingerência estatal —que deve ficar restrita às polícias dos campi, para assegurar a circulação livre do alunado e evitar que manifestações descambem para tumulto.
É inacreditável que o Partido Republicano, que passara as últimas décadas pregando contra o Estado grande, esteja agora, sob Trump, usando poderes da Presidência para impor uma visão ideológica a entidades privadas.
A cruzada contra a ciência poderá custar caro. Na decisão mais recente, a Casa Branca suspendeu novas entrevistas no exterior para obtenção de vistos de estudante, enquanto amplia a análise das redes sociais dos candidatos.
Um dos fatores decisivos para a liderança dos EUA nos campos da inovação tecnológica e da cultura foi sua capacidade de atrair as melhores mentes do planeta para o país. É isso o que Trump está colocando em risco.
