Pepe Mujica foi um anarquista com contradições

Da FOLHA
Por RUI TAVARES
Uruguaio não conseguia conceber a esquerda sem liberdade, distinguindo-se de líderes que acabam justificando o autoritarismo
Nos obituários de José “Pepe” Mujica cita-se uma frase que ele disse certo dia ao El País: “Dediquei-me a mudar o mundo e não mudei nada”. A frase é ambígua. Quer ele dizer que, apesar de todos os seus esforços, o mundo não mudou nada? Ou que, apesar de todos os esforços do mundo, foi Mujica que não mudou?
Sim e não. O mundo mudou muito e graças a Mujica também: o Uruguai aprovou a despenalização da maconha, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o programa Juntos, que deu casa e dignidade a muitos uruguaios, bem antes de tantos outros países da região.
E o próprio Mujica mudou muito: de rapaz atencioso que ajudava a mãe a cultivar flores e que apoiava Enrique Erro, um político de direita com consciência social, Mujica se aproximou da esquerda e ingressou na luta armada com os guerrilheiros Tupamaros; preso várias vezes, baleado pela polícia, torturado cruelmente, veio a ser um político da reconciliação e eleito pela Frente Ampla presidente do seu país, celebrado em todo o mundo e orador na Assembleia-Geral da ONU.
Ao mesmo tempo, Mujica não mudou, no sentido em que manteve independência e criatividade que atribuía a tendências arreigadas nas tradições e na história uruguaia. Foi teimosamente livre. E por isso mantinha a sua sobriedade como condição de soberania pessoal, evitando ser dominado pelos desejos de consumo.
“No fundo”, disse ele uma vez, resolvendo o dilema, “sou um anarquista com contradições”. Não o disse como provocação: Mujica conhecia bem a história do anarquismo no seu país e várias vezes procurou e obteve a colaboração de anarquistas.
Mas era ao mesmo tempo um social-democrata que acreditava na possibilidade da emancipação através de políticas públicas, e não rejeitou ser chefe de Estado, chegando mesmo a dizer que precisava do capitalismo para que “pague impostos e me ajude a libertar gente”.
Se um anarquista é chefe de Estado, isso é certamente uma contradição. Mas, se a partir daí, liberta os seus concidadãos, será uma contradição insanável?
Eu acho que não. Como Noam Chomsky, e talvez também como Bernie Sanders, outros dois teimosos individualistas e gigantes de um socialismo libertário, ou pelo menos democrático, nas Américas, José “Pepe” Mujica não conseguia conceber a esquerda sem liberdade. Nisso se distinguindo das esquerdas que por razões de conveniências táticas ou solidariedades geopolíticas acabam justificando o autoritarismo de esquerda.
Quantas vezes mencionei em debate a sua posição sobre a União Europeia, dizendo que apesar de todas as queixas de amigos de esquerda sobre a organização, “oxalá tivéssemos uma União Europeia na América Latina“? Vai fazer falta a sua síntese ideológica muito própria, na qual um idealismo altivo apareceu muitas vezes entremeado com um pragmatismo desarmante.
Para terminar, uma pergunta. Na sua crítica ao consumismo e na defesa de uma prosperidade simples, na sua visão de um mundo em que trabalhemos menos e tenhamos mais tempo para viver, não terá Mujica sido o primeiro presidente ecossocialista do mundo? Penso que sim. E, a ser verdade, o seu pensamento será uma inspiração para o resto do século.
