O pacto de Higienópolis

Da FOLHA
Por TATI BERNARDI
É porque pessoas como a mamãe existem que as outras, que dormem nas ruas, existem também
O bairro de Higienópolis, sonho de ascensão social de alguns paulistanos, incluindo essa cronista que não costuma se esquivar de assumir seus ridículos, foi palco na última quarta-feira de uma das mais emocionantes e urgentes manifestações contra o racismo.
O protesto, com cerca de 500 pessoas, entre elas estudantes, professores e pais, ocorreu após inúmeras denúncias de racismo dentro do shopping Higienópolis, a mais recente contra dois estudantes do colégio Equipe.
Se você é branco, caminhar pelo shopping Higienópolis pode ser bastante agradável. “Tem um gostosinho de sala de avó que gosta de livros e chazinhos” costuma me dizer uma amiga, assídua frequentadora do espaço. “Não me dá aquele ruim que sinto lá para os lados do Itaim, é menos metido, menos ‘direitoso’ e mais aconchegante”, ouvi outro dia de uma colega progressista e feminista.
Ali marco minhas reuniões na livraria, nos restaurantes e nos cafés. Aos finais de semana, levo minha filha ao teatro, ao cinema, ao parquinho no último andar, à sorveteria. Vamos a pé, de mãos dadas, ela dando saltinhos felizes, até começar a murchar e a me perguntar insistentemente sobre as pessoas dormindo nas calçadas. E então, frustrada com as minhas tentativas desajeitadas de explicar desigualdade social a uma criatura tão pequena, ela simplesmente me culpa por aquelas pessoas estarem tão desassistidas “se você é mãe deveria fazer alguma coisa”. Ou culpa a Deus (também errei em ter tantos santos pela casa).
Contudo, apesar da vida real tentar nos tirar do nosso caminho de fé cega, tentamos, assim como nossos irmãos brancos caminhando com seus familiares até a entrada do Boulevard, não perder o sorriso que antecipa nossas idas à papelaria e ao quiosque de maquiagem infantil. Tentamos não perder o corado de nossas bochechas felizes porque vamos nos lambuzar de gastança em um ambiente em que somos tão celebrados e bem recebidos.
Não tem um segundo do meu dia em que eu não pense que está tudo errado. Moro errado, educo errado, vou a lugares errados, ando com gente errada e sou a pessoa errada com quem muitos andam. E faço o que a respeito disso? Uma crônica? Grandes merdas. Como uma mãe educa uma criança para que ela seja melhor do que a mãe? Fica aí a pergunta no ar perfumado do andar da loja Sephora.
Olha, Rita, a mamãe faz parte de um pacto escroto de branquitude e está, além de protegida, ocupadíssima em ter cada vez mais dinheiro e sucesso e reconhecimento, e é porque pessoas como a mamãe existem que as outras, que dormem nas ruas, existem também. Não assim de forma tão direta, eu… enfim, só te peço uma coisa: seja melhor do que eu. Saiba observar mais, se indignar mais e se enojar mais.
Hoje, dia seguinte da manifestação no shopping, fico sabendo que uma moradora do meu prédio chamou minha funcionária, ao vê-la no elevador social, de fedida. Aviso que vou chamar a polícia. O porteiro liga para a síndica que liga para o filho da mulher e todos aparecem em minha porta: “ela tem demência, não fala coisa com coisa, não faz por mal”. Maria me implora para que eu não faça nada. O filho me mostra atestados, receitas médicas, exames. A mulher de fato é doente mental. Ou talvez sejamos (todos os brancos de Higienópolis) dementes que não falam coisa com coisa. Só não concordo que não seja por mal.
