Delegado ignorou denuncia de cambismo de administrador do estádio de Itaquera

Marcel Madruga e Fernando Capez

O Blog do Paulinho tratou, ontem, sobre o suspeito arquivamento do inquérito que investigava a pratica de cambismo institucional do Corinthians (dirigentes fornecendo ingressos a meliantes).

Despacho do delegado Marcel Madruga, da 4ª Delegacia de Crimes digitais, dentre diversas justificativas, inventou suposta utilização política da investigação, dizendo também que o assunto não era da competência de sua equipe.


Relembre:

É suspeito o arquivamento do inquérito dos cambistas do Corinthians


Tudo indica, sucumbiu a pressões.

Tivemos acesso à integra do depoimento, neste mesmo inquérito, de Lucio da Silva Blanco, administrador do estádio de Itaquera, funcionário importante da gestão Augusto Melo.

Destacamos os seguintes trechos:

“(o declarante) ressalta que foram recebidas denúncias sobre ingressos falsos ou já utilizados por terceiros, ocasionando bloqueio de acesso ao estádio para os titulares originais. Explica que criminosos criam sites falsos para vender ingressos com QR codes válidos que já foram utilizados, impossibilitando a entrada”

“Finaliza informando que a empresa mantém preocupação constante com a revenda indevida de ingressos, havendo inclusive funcionários dedicados a investigar a origem de ingressos comercializados ilegalmente”

“Ressalta ser possível realizar um rastreamento reverso caso haja necessidade de conferência, identificando para qual grupo ou pessoa determinado ingresso foi destinado”

“Informa ainda que existem grupos fixos, com acesso assegurado contratualmente ou por regulamento (empresas patrocinadoras e cadeiras cativas, por exemplo), e grupos variáveis, como Fiel Torcedor, funcionários internos e ingressos de cortesia”

“O grupo de ingressos variáveis é determinado por um colegiado formado pelo declarante, pelo diretor administrativo, pelo responsável pelas relações institucionais e por outro membro da diretoria. A decisão desse colegiado é submetida à apreciação e aprovação da diretoria, que geralmente concorda com a proposta apresentada”

“Todos os ingressos são emitidos mediante acesso com senha ao portal Fiel Torcedor e são identificados nominalmente, inclusive indicando o emissor”

Somente neste depoimento é possível comprovar:

  • detalhamento da prática de cambismo (“foram recebidas denúncias sobre ingressos falsos ou já utilizados por terceiros”);
  • a possibilidade, técnica, de rastrear os possíveis facilitadores (“Ressalta ser possível realizar um rastreamento reverso”);
  • a existência de um “colegiado”, composto pelo próprio Lucio Blanco, além de Marcelo Mariano (investigado no caso Vai de Bet), pelo promotor Thales Cezar de Oliveira e “outro membro da diretoria” que, apuramos, seria Marcos Boccatto, presidente de honra do Água Santa, que determina quantidade e destino de ingressos emitidos pelo clube, à margem da bilheteria, sem a divulgação dos agraciados;
  • a utilização de QR Code válido em sites falsos, o que, por si, jogaria por terra a alegação de que não haveria competência da Delegacia de Crimes digitais para o trabalho

Elementos não faltavam para a investigação.

A denúncia de um funcionário da própria gestão, além de dezenas de torcedores lesados, desabilita qualquer teoria de utilização política do episódio.

O que motivou o arquivamento?

Há quem garanta ter havido influência/pressão de autoridades ligadas à gestão Augusto Melo.

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