The popcorn is on the table

Da FOLHA
Por BECKY S. KORICH
No quesito extreme makeover idiomático, direita e esquerda falam a mesma língua: só muda o sotaque
Na avenida Paulista tem todas as tribos. Vê-se tudo, canta-se tudo, vende-se tudo, rouba-se tudo. E ouve-se tudo. De guitarras a vendedores de capinha de celular, de sotaques paulistanos a tailandeses, de passarinhos a buzinaços. Semana passada, o coração de São Paulo sofreu uma taquicardia. Foi um dos mais sublimes episódios da oratória política nacional, falado em um idioma vagamente parecido com o inglês de brasileiros que visitam Orlando.
Aos solavancos, Messias, o orador, pegou a sua colinha e leu algo que soou como: “Popcorn. And ice cream sinners. Sem. Tenced. Forcup detá. In Brazil!”. Imagino o que sairia da sua boca se não estivesse com a colinha na mão. No início, pareceu um pedido de IFood, mas depois tivemos a certeza de que ele perdeu uma ótima oportunity de nos poupar do seu inglês impecável.
Dizem que foi uma jogada de marketing, que o ex-presidente fala inglês tão good e é tão fluente que às vezes, sem querer, escapa um “tá okay” no lugar de “está bem” de tão acostumado com o idioma. Anyway, o fato é que ninguém conseguiu entender a sua fala, afinal, está inelegível; digo, ininteligível.
Apesar disso, as imagens pipocaram nas redes. O Google Translation está trabalhando a todo vapor para tentar decifrar esse dialeto ao estilo Joel Santana, autor das unforgettable pearls: “my equipe pray veri naici … played in the left, in the right, in the médium”, “Tá de brincation to me”. Quem pode forget dessa inesquecível entrevista?
Quanto mais bobagens se fala, mais as pessoas fingem entender. Quanto menos entendem, mais fácil concordarão. E se for em um idioma ininteligível, better ainda. É um prato cheio para que as pessoas engulam qualquer abobrinha.
A Paulista é um palco histórico de frases memoráveis. O também ex-presidente Fernando Collor de Mello gritou alto – em bom tom, e mau gosto – para que todos, do Masp à Vila Mariana, soubessem do seu orgulho de ter the thing purple. A mensagem foi toscamente clara: ele era tão bem-dotado que sua virilidade seria suficiente para (ele, Collor, não a coisa, imagino) encarar qualquer desafio. Um típico macho-man almofadinha dos anos 90. Mas depois que a cow foi para o brejo, o sangue subiu e foi a cara dele que ficou roxa.
A proficiência em língua estrangeira não tem partido. No quesito extreme makeover idiomático, direita e esquerda falam a mesma língua – só muda o sotaque. Presidente do Novo Banco dos Brics, a poliglota Dilma Rousseff, que já deu hello to the mandioca, não só manda bem no inglês e no francês, como também fala um espanhol del carajo. É o resultado de um cruzamento entre dilmês e portunhol. O but é que nem quem fala português, nem quem fala espanhol entende. Melhor assim.
Look well, eu sei que é fácil e deselegante tirar onda do inglês dos outros. Eu até arranho, mas não sou fluente como gostaria – um bom motivo para eu não sair na av. Paulista cuspindo meu inglês. Mas admiro quem tem a face of wood pra soltar o verbo sem medo de errar, porque in the end of the accounts, arriscar é a melhor forma de aprender.
Se errar, a gente sempre encontra um jeito de se levantar, shake the powder e turn around por cima. Essa é a nossa natureza, temos a capacidade de rir de tudo, principalmente de nós mesmos. Vida que segue, to be continued.
