Como salvar Gaza de Trump e do Hamas

De O GLOBO
Por GUGA CHACRA
A alternativa mais realista e legítima para o enclave seria uma administração da Autoridade Palestina com a ajuda de forças militares de outras nações
O melhor cenário para Gaza não é, obviamente, a cruel e criminosa limpeza étnica dos palestinos e o roubo do território proposto por Donald Trump. Tampouco a construção de um balneário cafona similar ao do repulsivo vídeo de inteligência artificial compartilhado presidente americano nas suas redes sociais. Ao longo deste texto, tentarei descrever qual seria a opção mais viável neste momento, que permita reconstruir Gaza para os palestinos ao mesmo tempo que Israel não corra o risco de ser alvo de outro atentado.
Primeiro, devemos seguir alguns parâmetros: o Hamas não pode governar Gaza e manter o monopólio da força do território; Israel tampouco pode reocupar o território e manter o controle sobre mais de 2 milhões de palestinos sem direito à cidadania ou Estado; os EUA não possuem o direito de roubar o território e muito menos levar adiante a limpeza étnica da população palestina.
A alternativa mais realista e legítima seria uma administração da Autoridade Nacional Palestina (ANP), com a ajuda de forças militares de outras nações, como o Egito e Jordânia, e suporte financeiro para a reconstrução de um consórcio de países como as nações árabes do Golfo Pérsico, EUA, China e União Europeia. Sim, há uma série de obstáculos a esse cenário e abordarei cada um deles.
Começo pelo Hamas. Por que a organização aceitaria perder a administração e o monopólio da força? Devemos olhar, no caso, para o Líbano com o Hezbollah. A organização xiita, ainda que de forma relutante, aceitou um governo independente em Beirute, incluindo opositores ao grupo. Além disso, concordou com o cessar-fogo, no qual precisa se desarmar e passar o controle do sul libanês para o Exército, em troca da retirada israelense da região.
O Hamas, como o Hezbollah no Líbano, não irá desaparecer, mas saiu enfraquecido da guerra. Diante das novas peças no tabuleiro, uma administração da Autoridade Nacional Palestina e dinheiro para a reconstrução seria a menos grave das opções para o grupo.
Podem legitimamente perguntar sobre o enfraquecimento da ANP. Sem dúvida, a organização está disfuncional. Em parte, por sabotagem do governo de Netanyahu. Mas também por incompetência e corrupção do governo de Mahmoud Abbas. Uma nova e forte liderança deveria assumir o cargo de primeiro-ministro. O nome sempre mencionado é o do ex-premier Salam Fayyed. Economista e professor de Princeton, desfruta de enorme respeito internacional e entre a população palestina.
Netanyahu descarta a presença da Autoridade Nacional Palestina em Gaza. Mas o que pretende o primeiro-ministro? Quer retomar a ocupação ilegal do enclave ou apoia a limpeza étnica proposta por Trump? A ANP, reformada, é a única opção legítima. Os países do Golfo já demonstraram disposição em ao menos arcar com parcela dos custos da reconstrução de Gaza. Egito e Jordânia, por sua vez, talvez concordem em enviar forças de paz em troca de benefícios. Não será simples. Provavelmente, não irá acontecer. Naquela região, o que está ruim costuma ficar pior ainda. Ainda assim, acho importante delinear o melhor cenário para salvar Gaza de Trump e do Hamas.
