Patrocinador pagar salário de jogador é mais uma lorota que dirigentes contam

De O GLOBO
Por RODRIGO CAPELO
Com quem é o contrato do jogador? O clube. Se o dirigente não pagar o salário do atleta, quem será acionado na Justiça?
Sazonal que é, o futebol acaba de entrar na época do mercado da bola, do vai e vem, do quem vai e quem fica — entre tantos nomes que a imprensa inventa para rotular a loucura que é a janela de transferências. Loucura, quase no sentido literal. É tanta expectativa pelas contratações de cada clube, que todo mundo perde a racionalidade, o pouco que resta nesse meio, em troca de uns jogadores a mais para o time. Com justificativas também sazonais.
Uma delas já reapareceu: o salário do craque vai ser pago com apoio do patrocinador. Foi assim que o São Paulo anunciou o “super-reforço” Oscar — com aspas só para frisar que o termo foi usado pelo presidente Julio Casares, e não pelo colunista, pois super-reforço o atacante de fato é. Como ele vai jogar em 2025, deixo para avaliação dos especialistas em campo e bola. Me pega no caso a lorota do pagamento do salário com suporte do parceiro.
Com quem é o contrato do jogador? O clube. Se o dirigente porventura não pagar o salário do atleta, quem será acionado na Justiça? O clube. E a história acaba aí. Não há complicação além desse ponto. Se a relação trabalhista se dá entre profissional e clube, o patrocinador não tem nenhuma responsabilidade sobre o pagamento da remuneração de um terceiro.
Ah, dirão eles, mas o dinheiro da casa de apostas está carimbado para pagar o salário do Oscar. O que não faz sentido. Na contabilidade, a verba está registrada como receita do São Paulo. No caixa, a grana cai na conta bancária e logo é consumida por tudo o que é necessário: custos, dívidas, obrigações de toda sorte. Dinheiro é dinheiro. Entrou para o saldo, é número.
Historinhas assim são contadas porque convêm a mais de um interessado. Ao dirigente, é simpático demonstrar ao torcedor que ele está preocupado com as duas linhas, a esportiva e a econômica. Não só um craque foi contratado, nem problemas financeiros ele causará! E ao patrocinador fica bonito o retrato, porque a marca dele passa a ser citada pela mídia. Quando o presidente chama o reforço de super, ainda faz um carinho na bet que leva o prefixo no nome.
O pior disso tudo é que o futebol, além de sazonal, é repetitivo. Outro dia, o Corinthians contratou Depay e alegou que os salários do holandês seriam pagos por outra casa de apostas. Veja só, quanta responsabilidade financeira a do presidente Augusto Melo. Semanas depois, a tal bet foi destacada como uma das que não conseguira licença para operar no Brasil. Agora, 2 de janeiro, uma decisão do STF vetou a manobra da Loterj para que essa empresa funcionasse.
Se a remuneração do atacante seria arcada pelo patrocinador, e tudo indica que o patrocinador suspenderá suas atividades, acontece o quê? Depay aciona a empresa na Justiça, deixa o Corinthians e volta pra Europa? Óbvio que não. Se a relação trabalhista do jogador é com o clube, é problema do clube pagar o salário dele. O dirigente que ache outro patrocinador, venda algum atleta ou faça nova dívida. A opinião pública é que devia ter ignorado a lorota lá atrás.
Pra que não fique margem de erro: existe uma hipótese em que o jogador compõe a renda dele entre clube e patrocinador, quando ele faz um contrato de imagem com a empresa e vira seu garoto-propaganda. Na época do mecenato da Unimed com o Fluminense, era assim que eles recebiam. Mas só funcionava assim porque era isso, mescla de patrocínio com amadorismo. Nas relações de clube-atleta de hoje, não se iluda, quem paga quase toda a conta é o clube.

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