Como nascem as desculpas da polícia

Da FOLHA
Por FLÁVIA BOGGIO
‘Todo mundo sempre cai nessa’, diz o chefe
No gabinete do alto comando da Polícia Militar de São Paulo, o comandante-geral coça o ouvido com um revólver, quando o assessor da corporação chega aflito, com o celular na mão.
“Senhor, temos uma situação complicada.”
O comandante procura na ponta do cano do revólver algum resquício do ouvido e responde: “Você fala em situação complicada pro comandante da polícia militar? Aqui não tem nada que seja problema”.
“Na verdade, é uma situação bem complicada”, comenta o assessor, enquanto abre as mensagens do celular: “Um grupo de policiais parou um suspeito na zona sul e fez uma abordagem um tanto… hostil”.
“Hostil? Você quer que a polícia faça massagem no suspeito? Leve pra tomar banho de ofurô?”, ironiza.
“Foi bastante hostil. Até para os nossos padrões“, confessa o assessor.
O oficial gira o revólver no dedo: “Mas fizeram o quê? Bateram no cara? Botaram saco na cabeça? Não tem nada que a gente não faça. Aqui é eficiência.”
“Comandante, eles jogaram o suspeito da ponte.”
O chefe para de brincar com a arma e questiona: “Assim, do nada?”
“Sim, do nada.”
“Caceta… Como era o cara? Você sabe?”, pergunta o comandante, apontando a arma para a própria pele do rosto. O assessor entende.
“Era negro. Um entregador de aplicativo.”
“Bom, diz que o cara era um meliante de alta periculosidade. E que, durante a abordagem, ele tomou uma rasteira e caiu.”
“Senhor, tem imagens deles pegando o rapaz pela camiseta e jogando ele da ponte.”
O comandante bate a arma na mesa: “Porra! A gente sempre dá um jeito de disfarçar essas merdas. A gente bota o cara pra correr e atira. Ou desliga a câmera e fala que o cara reagiu. Mas pegar o cara, no meio da avenida, e jogar o cara da ponte? Foda-se então! Diz que os caras vacilaram demais. Foram moleques!”.
O assessor suspeita: “O senhor quer que diga isso pros jornalistas?”.
O comandante se arrepende: “Não, fala isso só que de um jeito bonitinho. Diz que foi ‘um erro emocional, quase infantil’. A mídia vai achar chique. Aí eu afasto os policiais por um tempo e depois volto. Em uma semana ninguém mais vai se lembrar disso”.
“Enviarei sua declaração agora mesmo para a imprensa.” O assessor se lembra de algo. “Ah, e sobre aquele bebê morto da zona oeste, o que eu falo?”
“Diz que ele tava carregando um fuzil. Todo mundo sempre cai nessa.”
