Criticar Bolsonaro não deveria ser tão difícil para a direita

Da FOLHA

Por DAVI TANGERINO

Grande pacto de silêncio oculta um absurdo e homicida plano golpista; carne bovina rejeitada pelo Carrefour comove mais que a ordem democrática

Um animal enorme foi avistado sobrevoando uma pracinha; amontoada, a população discutia se o bicho voador era uma vaca ou um jumento. Como se o absurdo não fosse qualquer um deles voar. Essa tem sido a reação da direita brasileira diante dos fatos revelados recentemente pela Polícia Federal, com destaque ao plano estruturado para matar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice, Geraldo Alckmin, e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal.

A primeira reação já diz tudo; o senador Flávio Bolsonaro crava: “Pensar em matar não é crime”. Vaca ou jumento? Aposta na confusão, buscando minimizar a gravidade dos fatos. Filho do apontado articulador da trama golpista, sua postura é até compreensível.

Tarcísio de Freitas, o moderado, salta em defesa de seu capitão: “Não há provas de envolvimento de Bolsonaro”. Vaca ou jumento? Ao escolher apenas dar as mãos ao capitão, o governador paulista também opta por ignorar o bicho voador. O grave seria criminalizar Jair Bolsonaro; o golpe é um detalhe.

Arthur Lira, presidente da Câmara, ficou enfurecido. Não com a tentativa de golpe, mas com o indiciamento de alguns congressistas pela Polícia Federal. A carne bovina rejeitada pelo Carrefour comove mais que a ordem democrática. Nenhuma manifestação do estrelato direitista: Ronaldo CaiadoRomeu ZemaRatinho JuniorSergio MoroDeltan Dallagnol pediu prisão —da Janja, por ter xingado Elon Musk.

Um grande pacto de silêncio que oculta, deliberadamente, o absurdo: um homicida plano golpista para que o presidente eleito “não subisse a rampa”. Vivo ou morto.

Os autointitulados defensores da vida correram para buscar inserir na Constituição o dever de a mulher grávida por estupro deixar-se morrer para não abortar. A vida porvir é sagrada; já as nascidas… A bancada do “bandido bom é bandido morto” adormece a depender do indiciado. Ou corre para anistiar.

O desprezo democrático é tamanho que nem sequer fizeram um texto genérico, daqueles de assessoria de crise: “Um grupo de malucos, agindo à revelia de Bolsonaro”. Nada. Um silêncio eloquente que comunica uma adesão profunda à política como força bruta, como extermínio.

É certo que na democracia que eles tanto desprezam será importante debater se era vaca ou jumento. Com o devido processo legal, será relevante discutir tudo aquilo que até o dia 8 de janeiro de 2023 era “mimimi”: competência, imparcialidade, dolo, dosimetria de pena etc.

Como novidade, o relevante debate da fronteira entre atos preparatórios e consumação em crimes de empreendimento, como a tentativa de golpe. É legítimo que Lira defenda as prerrogativas parlamentares.

A vaca e o jumento terão seu dia na corte. E outros tantos na arena pública. Mas é preciso, primeiro, endereçar o bicho voador, sob pena de lançar-se a nação a debates alucinados, a maior Casa de Orates da história moderna.

O que está em jogo, sem exageros, é o futuro da democracia liberal que se vem conquistando entre nós, a trancos e barrancos, a custo de muito sangue. Qualquer nesga de esperança de um futuro minimamente ancorado na Constituição, porém, depende de um consenso quanto ao óbvio: é inadmissível que se tramem golpes de Estado. E esse consenso precisa de uma direita democrática. Não deveria ser difícil.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.