Milei reforça negacionismo ao retirar Argentina da COP29

Da FOLHA

EDITORIAL

Debandada da delegação afronta a multilateralidade e tende a isolar o país dos rumos do enfrentamento à mudança climática

Em um mundo acossado pelos efeitos da mudança climática, a saída intempestiva da Argentina das negociações da COP29, por ora em curso em Baku, no Azerbaijão, soa distópica, mas não chega a surpreender por se tratar de decisão do presidente negacionista Javier Milei.

A delegação que participava da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática recebeu ordens de retornar a Buenos Aires na quarta-feira (13), sem explicações convincentes aos anfitriões azeris, aos demais países e à sociedade argentina.

Há, contudo, lamentável coerência na atitude de um governante que associa o aquecimento global a uma “mentira do socialismo” e nega interferência humana no clima, fato desmentido por relatórios científicos de sobra.

Tais posições têm sido esbravejadas pelo mandatário desde sua campanha para a Casa Rosada, em 2023, quando uma seca descomunal assolou o país e agravou a já dramática crise econômica produzida pelo populismo de esquerda do antecessor.

A vitória eleitoral de Donald Trump, um negacionista capaz de desestabilizar os próximos fóruns, pode ter entrado no cálculo de Milei. Espera-se do futuro presidente dos EUA a renúncia ao Acordo de Paris —assim como já o fez em seu primeiro mandato.

Não será surpresa se a Argentina seguir o mesmo caminho. O alinhamento de Milei ao histriônico Trump, a quem considera um amigo, traz à memória o empenho de Buenos Aires em estabelecer “relações carnais” com Washington nos anos 1990. Na ocasião, por desinteresse americano, nada avançou.

Fato é que o país vizinho tem se mantido avesso à diplomacia multilateral, como já se observou em outros braços das Nações Unidas. Na Organização dos Estados Americanos (OEA) e no Mercosul, a delegação argentina bloqueou debates ligados à Agenda 2030 de sustentabilidade da ONU. Tais desvios da tradição do país têm sido anotados mundo afora, em particular pelo Itamaraty.

A presença confirmada de Milei na reunião do G20 (o grupo das principais economias globais), a ser capitaneada pelo Brasil e sediada no Rio de Janeiro nos dias 19 e 20, traz a promessa de dissabores, sobretudo na diplomacia bilateral. Nas negociações prévias, por exemplo, Buenos Aires já impediu consenso em torno da pauta de igualdade de gênero.

Encontros multilaterais raramente estabelecem mudanças imediatas de rota, mas a via diplomática ainda é a melhor alternativa ao planeta nessa corrida contra o tempo. Ninguém deveria ficar fora desse debate.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.