A porta arrombada das bets no Brasil

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Como sempre no país, procura-se a tranca depois de a boiada ter invadido o campo

Proibir as bets, como quer a PGR, pode diminuir a quantidade de apostadores, mas não impedirá apostas nas bancas fora do país, como se fazia antes de Michel Temer legalizá-las e Jair Bolsonaro não as regulamentar, descumprindo a lei que mandava fazê-lo.

O que a PGR fará em relação a tal crime, incluída a renúncia fiscal, novo motivo de inelegibilidade?

Lula regulamentou, mas descuidou dos efeitos colaterais na população e no sistema de saúde.

“Os brasileiros têm o cassino nos bolsos”, alertou Macaé Evaristo, a ministra dos Direitos Humanos.

Propostas inócuas como a de proibir apostas em cartões amarelos, escanteios etc., pululam em cabeças esquecidas de que de nada adianta proibir aqui o que é permitido fora daqui.

A CPI das apostas já era piada pronta com senadores propagandistas de bets e mergulhou no ridículo ao dar credibilidade ao meliante que jogou sujeira no ventilador, para desaparecer depois de marcar encontro com seus membros em local incerto e não sabido até ser preso em Dubai.

Acrescente que o ministro do Esporte, André Fufuca, nomeou para a pomposa Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte, a que em tese deve fiscalizar a lisura dos jogos, um lobista da jogatina, Giovanni Rocco Neto, com apoio do PCdoB, do PT e, é óbvio, das entidades que representam as casas de apostas.

Rocco defende a legalização do jogo do bicho em São Paulo desde que assessorou o prefeito Luiz Marinho (PT), em São Bernardo do Campo, sob o polêmico argumento do recolhimento de impostos e regulamentação do mercado de trabalho, projeto que esbarra na oposição dos bicheiros do Rio.

Fufuca, que substituiu Ana Moser, pôs a raposa para cuidar do galinheiro.

Melhor que proibir apostas ou suas modalidades, pela impossibilidade de controlá-las, seria a proibição da propaganda desenfreada nas camisas dos clubes, nas placas em estádios e nos meios de comunicação, por mais que todos, cândida e comoventemente, peçam moderação aos apostadores.

Enquanto isso, entre hipocrisias e cinismos, crescem as desconfianças de manipulação.

Pior só ler a desfaçatez do golpista inelegível ao pedir respeito à democracia

Ninguém mais pode errar, dos assopradores de apito aos goleiros, zagueiros, meio-campistas e atacantes, o VAR incluído, sem que alguém levante a suspeita de manipulação de resultados.

Rara leitora, raro leitor, estamos diante de mais uma faceta deste nada admirável mundo novo, 500 anos antes daquele descrito pelo inglês Aldous Huxley.

Enxugar gelo é o nosso esporte predileto.

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